Toda vez que alguém faz um filme ou uma série sobre viagem no tempo, imagino como o escritor britânico H. G. Wells conseguiu imaginar uma máquina capaz de levar seu personagem ao futuro da humanidade. Ele escreveu A Máquina do Tempo no final do século 19, seu primeiro grande trabalho de ficção. O fato é que essa incrível história colocou seu nome ao lado de autores como Edgar Rice Burroughs (A Princesa de Marte), Mary Shelley (Frankenstein) e Jules Verne (20.000 Léguas Submarinas).
Antes de falar sobre o clássico de 1960, que descobri aqui na Darkflix+, meu primeiro contato com a obra estrelada por Rod Taylor e dirigida por George Pal aconteceu na televisão, nos anos 70. As tardes de sábado eram reservadas a uma sessão de cinema exibida pela Globo, onde sempre apareciam filmes interessantes, como “Choque de Planetas”, “O Fim do Mundo” (1951), “Guerra entre Planetas” (1955) e muitos filmes de Tarzan, estrelados por Johnny Weissmuller.
Na semana seguinte, fui à biblioteca da escola e encontrei Os Mercadores do Espaço (The Space Merchants), escrito por Frederik Pohl e C. M. Kornbluth em 1953. Não era uma ficção com naves espaciais, robôs assassinos ou invasores de outros planetas. Era simplesmente uma sátira ao consumismo. Li até o final e saí procurando A Máquina do Tempo, que encontrei na Biblioteca do SESC Vila Nova.
Acredito que foi a primeira vez que entendi que nem tudo o que se escreve consegue ser transposto para o cinema. Isso ficou ainda mais claro anos mais tarde, quando li Tubarão, no Círculo do Livro, e depois vi o belíssimo trabalho de Steven Spielberg. Duas obras distintas contando, essencialmente, a mesma história.
A Máquina do Tempo
Muito antes de as viagens no tempo se transformarem em um dos grandes temas da ficção científica cinematográfica, H. G. Wells já havia imaginado, em 1895, um inventor capaz de atravessar os séculos. Em 1960, o produtor e diretor George Pal levou essa ideia para o cinema em “A Máquina do Tempo”, uma produção da Metro-Goldwyn-Mayer estrelada por Rod Taylor.
Pal já era conhecido em Hollywood. Foi responsável por produzir diversos filmes de ficção científica nos anos 50. Começou com “Destino à Lua”, de 1950, baseado na obra de Robert A. Heinlein. No ano seguinte, fez “O Fim do Mundo”, sobre a colisão entre a Terra e outro planeta. Depois veio “A Guerra dos Mundos” (1953), baseado na obra original de H. G. Wells. Finalmente, em 1955, realizou “A Guerra entre Planetas”, quando alienígenas usam secretamente cientistas terrestres para vencer uma guerra em outra galáxia.
O filme mostra um jovem cientista que constrói uma máquina capaz de viajar para o futuro. George, interpretado por Rod Taylor, queria descobrir o que o futuro reservava para a humanidade. Essa era a ideia básica do livro: observar para onde a humanidade caminharia ao longo dos séculos. Mas, quanto mais avançava no tempo, mais seus sonhos de uma humanidade vivendo em harmonia se transformavam em uma assustadora realidade. O final do filme é mais otimista do que aquilo que H. G. Wells imaginou quando concebeu A Máquina do Tempo.
O projeto de levar A Máquina do Tempo para Hollywood enfrentou dificuldades até que Pal conseguisse convencer um estúdio a financiar a adaptação. A solução veio através da MGM, com a qual o produtor já havia trabalhado. O orçamento era relativamente modesto e as filmagens foram realizadas em apenas 29 dias. Pal chegou a considerar nomes como Paul Scofield, Michael Rennie e James Mason para o papel principal, mas acabou escolhendo o australiano Rod Taylor, então ainda pouco conhecido do público americano.
Um Clássico da Ficção-Científica
O resultado impressiona especialmente pelo trabalho visual. A famosa máquina foi concebida a partir de uma ideia aparentemente simples: uma cadeira de barbeiro do início do século, transformada em uma espécie de veículo futurista, com um grande disco na parte traseira. Para representar a passagem acelerada do tempo, Pal e sua equipe utilizaram efeitos fotográficos e mudanças de iluminação que faziam o mundo ao redor da máquina envelhecer diante dos olhos do espectador.
Os efeitos funcionaram tão bem que “A Máquina do Tempo” recebeu o Oscar de efeitos especiais, entregue a Gene Warren e Tim Baar na cerimônia de 1961. Foi também uma das produções que ajudaram a consolidar George Pal como um dos grandes artesãos da ficção científica cinematográfica.
Outro aspecto interessante está na escolha de Yvette Mimieux para interpretar Weena. A atriz ainda era pouco conhecida e havia acabado de perder seu contrato com a MGM. O sucesso do filme ajudou a transformá-la em uma das jovens estrelas do estúdio no início dos anos 1960.
Na adaptação, Pal simplificou algumas das ideias sociais presentes no livro de Wells, especialmente a relação entre os Eloi e os Morlocks, transformando parte da crítica social original em uma aventura mais diretamente voltada ao conflito entre sobreviventes e ameaças do futuro. Mesmo assim, o filme preservou algo essencial da obra de Wells: a viagem pelo tempo como uma maneira de observar não apenas o futuro, mas o destino da própria humanidade.
Mais de seis décadas depois, sua influência permanece evidente. O filme ganhou status de clássico da ficção científica e continuou sendo revisitado, inclusive através da refilmagem de 2002. Mas é a versão de George Pal que permanece especialmente admirada por conseguir realizar uma grande viagem através dos séculos com recursos muito mais limitados do que aqueles disponíveis para o cinema contemporâneo.
Mais do que uma máquina capaz de atravessar os séculos, H. G. Wells criou uma maneira de olhar para o futuro e questionar o próprio destino da humanidade. George Pal levou essa ideia para o cinema em 1960 e, mesmo com os recursos limitados de sua época, conseguiu transformar aquela viagem imaginária em um dos grandes clássicos da ficção científica. Uma máquina construída no passado para viajar pelo futuro — e que, mais de seis décadas depois, continua funcionando perfeitamente.
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
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