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The Rocky Horror Picture Show: o nascimento de uma estrela chamada Tim Curry

Publicado em 4 de Outubro de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Considero que meu conhecimento sobre a história do cinema foi crescendo com o tempo. Por isso, quando escrevo sobre uma obra histórica, faço uma regressão para relembrar como tomei conhecimento de um filme em particular. É o que aconteceu quando vi na Darkflix, o cultuado “The Rocky Horror Picture Show”.

Não vi o filme no cinema em seu lançamento original, porque a Fox não o trouxe para o Brasil. Motivo: o filme empacou nas bilheterias americanas. E a regra para gastar tempo e dinheiro para o lançamento de um filme americano era simples: naquele período, o desempenho de um filme nos Estados Unidos e no Canadá era um dos fatores considerados pelos estúdios antes de investir em seu lançamento internacional. Uma regra que vinha ocorrendo até os anos 90, quando a janela de exibição começou a diminuir até o ponto dos lançamentos serem simultâneos neste século.

Tinha ouvido falar em “The Rocky Horror Picture Show” por causa da ópera-rock criada por Richard O’Brien em 1973, e que acabou sendo montada no Brasil dois anos depois. Mas a peça que faltava para entender por que o filme havia se transformado em cult estava no filme “Fama” (1980), dirigido por Alan Parker. Um grupo de estudantes de artes dramáticas vai a um cinema de Nova York para ver o filme, e acaba interagindo com ele, cantando e dançando com as cenas exibidas na sessão.

Antes do filme chegar aos cinemas brasileiros em 1985, para comemorar dez anos de sua estreia nos Estados Unidos, a agência Standard Ogilvy & Mather (hoje conhecida apenas como Ogilvy) criou um dos clássicos da propaganda na TV inspirado em “The Rock Horror Picture Show”. A campanha educativa Shell Responde, estrelada por Otavio Augusto e Cristina Mullins, mostrava exatamente o início do filme, com um casal com problemas no carro no meio de uma chuva forte. Curiosamente, Otavio e Augusto se casaram em 1986 e estão juntos até hoje.

 

Bom, e sobre o filme?

Em 1975, um filme estranho chegou aos cinemas sem necessariamente parecer destinado a se tornar um clássico. Misturando horror, ficção científica, musical, comédia e referências ao cinema B dos anos 1950, “The Rocky Horror Picture Show”, era a adaptação do espetáculo musical homônimo criado por Richard O’Brien, lançado em Londres em 1973. No centro daquela extravagância estava um ator inglês praticamente desconhecido do público cinematográfico: Tim Curry.

A peça foi um sucesso em Londres e também em Los Angeles, quando chegou na Costa Oste em 1974. Foi a partir desse sucesso que a Fox decidiu levar a criação de Richard O’Brien para o cinema. Quando a montagem chegou à Broadway, porém, o entusiasmo diminuiu. Críticos e público receberam a produção com pouca receptividade, e ela encerrou sua curta temporada depois de apenas 45 apresentações.

Para terror dos executivos do estúdio, o filme chegou em setembro de 1975, repetindo o fracasso da Broadway. O que ninguém poderia imaginar é que no ano seguinte, um executivo de marketing convenceu uma sala de cinema alternativa de Nova York, o Waverly Theater, a exibir o filme nas sessões da meia-noite. Foi com essa decisão que o público começou a voltar repetidamente, fantasiar-se, gritar com a tela e atirar objetos, transformando o longa-metragem no maior clássico cult e um dos filmes de maior permanência em cartaz da história. Como aconteceu em Fama.

 

A lenda Tim Curry

Como Dr. Frank-N-Furter, Curry encontrou um personagem que parecia feito sob medida para sua presença cênica e teatral. Vestido como uma caricatura glamourosa de um cientista louco, com sotaque deliberadamente exagerado e uma atitude que desafiava as convenções da época, ele transformou Frank-N-Furter no elemento mais memorável do filme. Na montagem brasileira feita no Rio, Eduardo Conde fazia o Dr. Frank, ao lado de Wolf Maia, Tom Zé, Lucélia Santos e Zé Rodrix.

O longa acompanha Brad Majors (Barry Bostwick) e Janet Weiss (Susan Sarandon), um jovem casal que, depois de sofrer uma pane no carro durante uma noite chuvosa, procura ajuda em um castelo. O lugar pertence ao excêntrico Frank-N-Furter, que está prestes a apresentar sua mais nova criação: Rocky, um homem artificialmente produzido para satisfazer seus desejos.

A história funciona como uma paródia dos antigos filmes de terror, das produções de ficção científica e dos musicais populares. O problema é que a mistura nem sempre encontra o equilíbrio. Para quem chega ao filme esperando uma combinação particularmente sofisticada entre rock e horror, Rocky Horror pode parecer mais uma sucessão de números musicais e referências do que uma narrativa realmente integrada.

Mas essa talvez seja justamente uma das características que explicam sua permanência. O filme não depende apenas da história. Ele depende da atitude. E, nesse aspecto, Tim Curry é fundamental. Sua interpretação de Frank-N-Furter transforma um personagem que poderia ser apenas uma caricatura em uma presença cinematográfica inesquecível. Antes mesmo de conquistar papéis importantes no cinema e na televisão, Curry demonstrava ali uma capacidade que se tornaria uma de suas marcas: entrar em personagens completamente diferentes dele e encontrar uma maneira de torná-los reconhecíveis imediatamente.

Depois de Rocky Horror, viriam trabalhos como “Os Sete Suspeitos” (1985), “A Lenda” (1985), “It – A Obra-Prima do Medo” (1990), “Caçada ao Outubro Vermelho” (1990), “Esqueceram de Mim 2” (1992), “Os Três Mosqueteiros” (1993), a minissérie “Titanic” (1996), “As Panteras” (2000) e inúmeros papéis na televisão. Mas Frank-N-Furter permaneceu como uma espécie de cartão de visitas permanente.

E existe uma ironia interessante nessa trajetória: o filme que apresentou Tim Curry ao grande público não transformou o ator em uma estrela convencional de Hollywood. Transformou-o em algo talvez mais interessante: um ator imediatamente reconhecível.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

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