Após escrever o artigo sobre a comédia de Abbott e Costello, Às Voltas com Fantasmas (Abbott e Costello Meet Frankenstein), me lembrei como conheci o Drácula interpretado por Bela Lugosi, em 1931. Posso não lembrar de detalhes, mas acredito que vi essa versão no Cine Mistério, sessão de filmes de suspense e terror criada pela Tv Bandeirantes nos anos 70. Tenso do começo ao fim, assisti imaginando quando o vampirão criado por Bram Stoker iria mostrar suas presas frente suas vítimas.
Não rolou…
Não fiquei frustrado. Apenas entendi que aquela era uma versão mais antiga da que eu tinha visto antes na TV chamada “Horror de Drácula” (1958), com Christopher Lee e Peter Cushing. Na realidade, o filme chegou aos cinemas brasileiros como “O Vampiro da Noite”, e posteriormente, colocaram o conde vampiro no título, para dar mais charme. O fato é que foi a versão britânica que mostrava Drácula atacando suas vítimas com suas presas expostas. O que não acontecia com os vampiros americanos pós Bela Lugosi.
Outro aspecto que sempre me chamou a atenção é que foi com Drácula que nasceu aquilo que hoje conhecemos como os Monstros da Universal, o que pode ser considerado a primeira franquia cinematográfica do cinema. Muito antes de Hollywood falar em “universos compartilhados”, a Universal Pictures já havia descoberto uma fórmula que transformaria personagens do terror em fenômenos da cultura popular.
O curioso é que esse universo não nasceu de um plano estratégico, mas da sucessão inesperada de sucessos de bilheteria durante a década de 1930. A história começou em 1931, quando o estúdio lançou dois filmes que redefiniriam completamente o gênero de horror.
Em fevereiro daquele ano estreou “Drácula”, dirigido por Tod Browning e estrelado por Bela Lugosi. Baseado no romance de Bram Stoker e na adaptação teatral da Broadway, o filme apresentou ao público um vampiro elegante, aristocrático e hipnotizante, bem diferente das figuras monstruosas do cinema mudo. Lugosi transformou seu sotaque húngaro, sua postura e seu olhar penetrante em características inseparáveis do personagem.
Poucos meses depois veio “Frankenstein”, dirigido por James Whale. O filme adaptava livremente o romance de Mary Shelley, mas foi além da obra literária ao criar a aparência definitiva da criatura. A maquiagem concebida por Jack Pierce — cabeça achatada, parafusos no pescoço e cicatrizes pelo corpo — tornou-se uma das imagens mais reconhecidas da história do cinema. A interpretação sensível de Boris Karloff também ajudou a transformar o monstro em uma figura trágica, mais digna de compaixão do que de medo.
Os dois filmes arrecadaram muito mais do que a Universal imaginava. Em plena Grande Depressão, quando os estúdios buscavam desesperadamente produções lucrativas, o terror mostrou-se um excelente negócio.
Curiosidade sobre a produção de “Drácula”: a Universal estava muito atenta aos mercados latinos e por isso, decidiu fazer uma versão em espanhol de “Drácula”, com o elenco liderado por Carlos Villar, como o conde vampiro. E para facilitar, o filme foi rodado no mesmo cenário: durante o dia filmava-se a versão estrelada por Bela Lugosi; à noite entrava em cena a equipe liderada por Carlos Villar. Ironicamente, com o tempo, muitos especialistas acreditam que a versão latina é mais interessante do que a americana.
O NASCIMENTO DOS MONSTROS DA UNIVERSAL
O êxito levou o estúdio a investir em outros personagens da literatura fantástica. Em 1932 chegou “A Múmia”, novamente com Boris Karloff, vivendo o sacerdote egípcio Imhotep. Embora inspirado na descoberta da tumba de Tutancâmon e na chamada “maldição dos faraós”, o filme criou uma narrativa romântica envolvendo reencarnação e amor eterno.
Dois anos depois, James Whale dirigiu “A Noiva de Frankenstein” (1935), considerado por muitos críticos superior ao original. A sequência ampliou a dimensão filosófica da criatura e apresentou outro ícone do cinema: a Noiva interpretada por Elsa Lanchester.
Em 1941 foi a vez de “O Lobisomem”, estrelado por Lon Chaney Jr. Embora existissem filmes anteriores sobre homens-lobo, foi essa produção que estabeleceu praticamente toda a mitologia moderna do personagem: a transformação durante a lua cheia, a vulnerabilidade à prata e a maldição transmitida pela mordida.
O interessante é que durante anos Jon Chaney Jr. resistiu a seguir os passos do pai, conhecido como O Homem das Mil Faces, graças às técnicas de maquiagem que usava para se transformar em personagens totalmente diferentes. Lon Chaney foi uma das grandes estrelas do cinema mudo, interpretando “O Corcunda de Notre Dame” (1923), “O Fantasma da Ópera” (1925), “O Falcão Negro” (1926).
A GENIALIDADE DE JACK PIERCE
Se Bela Lugosi, Boris Karloff e Lon Chaney Jr. deram personalidade aos monstros, foi o maquiador Jack Pierce quem lhes deu um rosto inesquecível. Pierce passava horas aplicando maquiagem artesanal nos atores, utilizando algodão, colódio, cera e borracha líquida. Cada personagem possuía um visual completamente diferente, desenvolvido especificamente para reforçar sua identidade. Seu Frankenstein tornou-se talvez o design de personagem mais famoso da história do cinema, enquanto suas criações para a Múmia e o Lobisomem continuam influenciando maquiadores até hoje.
Um dos melhores exemplos de sua criação visual do monstro criado por Victor Frankenstein vem da série “Os Monstros” (1964), de Herman Munster (Fred Gwynne), o patriarca da Família Munster (Monstro, no Brasil) era a versão televisiva do que Jack Pierce fez com Boris Karloff. Depois disso, vieram outros monstros de Frankestein feitos por Christopher Lee (“A Maldição de Frankenstein” – 1957), Peter Boyle (“Jovem Frankenstein” – 1974), Robert De Niro (“Frankenstein de Mary Shelley” – 1994) e o recente filme de Guillermo Del Toro, “Frankenstein” (2025), onde Jacob Elordi interpreta o monstro.
QUANDO NASCEU O PRIMEIRO UNIVERSO COMPARTILHADO
Na década de 1940, a Universal percebeu que o público desejava ver seus monstros juntos. Foi então que surgiu uma ideia revolucionária para a época: reunir personagens de filmes diferentes em uma mesma história. Tudo começou com “Frankenstein Encontra o Lobisomem” (1943). Lon Chaney Jr. retoma o personagem de Larry Talbot, que tenta descobrir uma cura para a maldição que o transforma em lobo humano nas noites de lua cheia. Na Mansão da Baronesa Elsa Frankenstein, que continua as experiências de Victor, seu avô, Larry acaba descobrindo que a criatura, agora interpretada por Bela Lugosi, está sendo mantida congelada.
O resultado foi o sucesso que a Universal precisava para continuar seu ‘universo de monstros’. Depois vieram “A Casa de Frankenstein” (1944), onde um cientista louco feito por Boris Karloff foge da prisão e para vingar seu nome, recruta um trio assustador, com o monstro de Frankenstein (Glenn Strange), o conde Drácula, feito pelo lendário John Carradine, e o próprio Larry Talbot (Lon Chaney Jr.). Aliás, Glenn Strange voltaria a fazer o monstro na comédia “Abbot e Costello às Voltas com Fantasmas” (1948).
No ano seguinte, foi a vez de “A Casa de Drácula” (1945). Agora, Drácula, novamente feito por John Carradine, decide que quer por um fim ao seu vampirismo, pedindo ajuda ao renomado cientista Dr. Franz Edelmann (Onslow Stevens). Quem também procura o cientista é Larry Talbot (Lon Chaney Jr.), acreditando que pode se livrar da maldição do lobisomem. Durante uma busca no penhasco à procura de Talbo, Franz acaba encontrando a criatura de Frankestein, novamente feio por Glenn Strange, congelada na lama.
Mesmo com todo esse elenco de personalidades monstruosas, o filme teve uma produção apertada, com diversos dos efeitos especiais aproveitados de outros filmes da Universal. Tanto que ele tem menos de 70 minutos de duração. Após este longa, as criaturas clássicas só se reuniriam novamente três anos depois, em 1948, entrando do universo da dupla Joe Abbott e Lou Costello com “Abbott e Costello às Voltas com Fantasmas”, também conhecido como “Abbott e Costello Encontram Frankenstein”.
A história mostrava como dois funcionários de uma importadora acabaram se envolvendo com uma cientista louca, o conde vampiro feito novamente por Bela Lugosi, e o monstro de Frankenstein, sendo ajudados pelo amaldiçoado Larry Talbot. Mesmo sendo uma comédia, as sequências de terror davam calafrios, especialmente o embate final entre Drácula e o Lobisomem. Uma cena clássica.
UM LEGADO ETERNO
Entre 1931 e o final dos anos 1940, a Universal produziu dezenas de filmes protagonizados por seus monstros clássicos. O estúdio criou uma identidade visual própria, desenvolveu técnicas inovadoras de maquiagem e fotografia expressionista e estabeleceu muitos dos elementos que ainda hoje definem o cinema de terror.
Historicamente, a Universal Pictures praticamente salvou o gênero do horror em Hollywood quando produziu “Drácula” em 1931. No final da década de 1920, os grandes estúdios viam o terror como um nicho pouco rentável. O sucesso estrondoso de “Drácula” e “Frankenstein” levou concorrentes como a MGM, a Paramount e a RKO a investirem em produções do gênero. Sem imaginar, a Universal inaugurou uma estratégia que hoje domina Hollywood: a construção de franquias baseadas em personagens recorrentes e em um universo compartilhado.
Hoje parece natural imaginar um estúdio planejando um universo compartilhado. Marvel, DC, Star Wars, Avatar, Jurassic World e Godzilla fazem parte de estratégias cuidadosamente desenhadas para manter personagens vivos durante décadas. Mas, quando a Universal lançou “Drácula” em 1931, esse conceito simplesmente não existia.
Naquele período, Hollywood era organizada em torno das estrelas. O público comprava ingresso para ver Clark Gable, Greta Garbo, James Cagney ou Joan Crawford, e não necessariamente porque um personagem retornaria em outro filme. As continuações eram relativamente raras e, quando aconteciam, normalmente eram tratadas como produções isoladas.
O enorme sucesso de “Drácula” (1931) e “Frankenstein” (1931) revelou que o verdadeiro patrimônio do estúdio não eram apenas seus atores ou diretores, mas aqueles personagens. O público queria reencontrá-los. Não importava se o diretor mudava ou se parte do elenco era substituída: Drácula continuava sendo Drácula, Frankenstein continuava sendo Frankenstein.
A maior contribuição da Universal talvez não tenha sido criar monstros inesquecíveis. Ela mostrou que personagens podiam sobreviver às décadas, atravessar diferentes gerações, mudar de intérpretes, ganhar novas histórias e permanecer relevantes. Sem Drácula, Frankenstein, a Múmia e o Lobisomem talvez nunca tivéssemos James Bond, Star Wars, Indiana Jones, Harry Potter, o Universo Cinematográfico Marvel ou mesmo o atual MonsterVerse de Godzilla e Kong. Mais do que fundar um gênero, a Universal ajudou a estabelecer um modelo de negócios que conversa melhor com a ideia de franquia que continua sustentando Hollywood quase um século depois.
No canal Darkflix+, você tem acesso aos Monstros da Universal, nos grandes clássicos do cinema de terror.
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
DARKFLIX+ é um serviço de streaming de filmes e séries dos gêneros terror, ficção-científica e fantasia. Baixe o aplicativo DARKFLIX+ no seu celular ou tablet diretamente de sua loja de aplicativos ou acesse pelo site www.darkflixplus.com.br. Para ter acesso ao conteúdo pago basta assinar o serviço por R$ 9,90/mês, ele pode ser pago através de cartões de crédito. A DARKFLIX+ está disponível em diversos sistemas operacionais e dispositivos de Smart TVs, como o Tizen, webOS, Roku, Android TV, Chromecast, além de iOS e Android (mobile), entre outros. Também está disponível para assinatura pela Claro tv+.