Muitas vezes, eu vou ao cinema por curiosidade. Quero saber mais detalhes sobre uma determinada produção que vai entrar em cartaz. O trailer nunca expressa o que você irá ver. Por isso, quando a Warner Bros. anunciou o lançamento de “Jack – O Caçador de Gigantes”, confesso que bateu a nostalgia.
Nada contra o filme estrelado por Nicholas Hoult em 2013. Um tradicional flashback, me vi na frente do antigo cine Campo Belo, na cidade de mesmo nome no interior de Minas. Foi naquela cidade, naquele cinema, que assisti a grandes momentos do cinema, como “Quo Vadis” (1951). E para dar um contexto, os grandes filmes eram muito reprisados nas salas do interior do Brasil. Aquele filme em 1969, era uma reprise.
Outra boa lembrança era olhar os cartazes de “futuros lançamentos”. Um deles, se destacava dos outros: “Jack – O Matador de Gigantes” (1962). Nunca vi o filme no cinema. Acabaram as férias e voltei para São Paulo. Jack era apenas uma boa lembrança, até que a Rede Tupi exibiu o filme numa dessas noites de cinema em casa.
Confesso que o filme me surpreendeu. Não apenas pelo filme, com efeitos visuais ousados para a época. Mas, pelo elenco, especialmente porque trazia dois atores que já tinha visto em outro filme. Kerwin Matthews e Torin Thatcher, que fazia Jack e o vilão Pendragon, respectivamente. Os dois estiveram juntos como herói e vilão, no clássico “Simbad e a Princesa” (1958) com efeitos especiais de Ray Harryhausen!
Feito esse testemunho, veja por que “Jack – O Matador de Gigantes” merece ser lembrado entre as produções de fantasia daquele período e que mereceu até mesmo uma superprodução pela Warner Bros.
Aventura e Fantasia

Houve um tempo, em que a ficção-científica e o terror, eram os grandes atrativos para os jovens, especialmente nos drive-ins americanos. Foi uma década de invasões alienígenas, monstros mutantes, criaturas das trevas e outros bichos. No começo dos anos 1960, o cinema fantástico ainda vivia sob a sombra de uma produção que havia estabelecido novos padrões para as aventuras de fantasia.
Com “Simbad e a Princesa”, lançado em 1958, uma fantasia baseada no clássico personagem dos Contos das Mil e Um Noites, o gênero começou a conquistar novos espaços. Há historiadores que acreditam que um dos fatores para o sucesso do filme dirigido por Nathan Juran, foram os efeitos de animação em stop-motion assinados por Ray Harryhausen.
Não há como deixar de lado, a experiência do diretor e um elenco carismático liderado por Kerwin Mathews, Juran havia feito o clássico da ficção dos anos 50, “A Vinte Milhões da Léguas da Terra” (1957) e o cultuado “O Ataque da Mulher de 15 Metros” (1958). Kerwin começou sua carreira na televisão atuando em diversas antologias dramáticas como “Playhouse 90” (1956). Mas seu perfil de bom moço no filme de guerra, “A Mensagem Fatal” (1958), garantiu seu passaporte para a Espanha, onde “Simbad e a Princesa” foi filmado.
O impacto da história e os efeitos criados pelo lendário Ray Harryhausen garantiram o sucesso do filme. Principalmente, abriu espaço para uma série de aventuras inspiradas em contos de fadas, lendas orientais e histórias de fantasia.
Precisamos falar sobre Kerwin
Foi nesse cenário que surgiu “Jack – O Matador de Gigantes”, produção de Edward Small lançada em 1962. O filme tinha uma característica que imediatamente chamava a atenção dos espectadores que haviam acompanhado “Simbad e a Princesa”: reunia novamente o diretor Nathan Juran e os atores Kerwin Mathews e Torin Thatcher.
Mathews interpretava Jack, um jovem camponês que se transforma em herói ao salvar a princesa Elaine, vivida por Judi Meredith. Thatcher, por sua vez, assumia o papel de Pendragon, o Mestre dos Demônios, retomando aquele tipo de vilão que havia interpretado quatro anos antes como o feiticeiro Sokurah em “Simbad e a Princesa”.
A história parte de uma conhecida lenda inglesa. Pendragon, banido do reino, pretende recuperar seus poderes utilizando gigantes e criaturas demoníacas. Quando a princesa Elaine é sequestrada, Jack consegue derrotar um dos gigantes e passa a ser encarregado de protegê-la. A missão leva o jovem herói a uma aventura que envolve castelos, mares, criaturas sobrenaturais e, naturalmente, gigantes.
Mas “Jack – O Matador de Gigantes” é interessante justamente por aquilo que existe por trás da aventura. Edward Small havia anunciado o projeto ainda em 1959, quando “Simbad e a Princesa” continuava sendo uma referência no gênero. A produção, entretanto, demorou a sair do papel. As filmagens somente começaram em julho de 1960, com cenas realizadas em Catalina Island e nos estúdios de Hollywood, terminando em agosto daquele ano. O filme só chegaria aos cinemas em junho de 1962.
A intenção de Small era bastante clara: aproveitar a fórmula que havia funcionado tão bem para Simbad. O próprio Nathan Juran reconheceria posteriormente que o produtor procurava repetir aquela combinação de aventura, fantasia e efeitos especiais. O problema era que havia uma peça fundamental que não estava disponível: Ray Harryhausen.
Para cuidar dos efeitos, Juran dividiu o trabalho entre diferentes equipes. A Howard A. Anderson Company ficou responsável pelos efeitos fotográficos, enquanto a Project Unlimited supervisionou a animação em stop-motion (animação quadro-a-quadro). Entre os profissionais envolvidos estava Jim Danforth, então ainda no começo de sua carreira. Ele seria indicado ao Oscar pelos efeitos visuais dos filmes “As Sete Faces do Dr Lao” (1965) e “Quando os Dinossauros Dominavam a Terra” (1972).
Essa diferença ajuda a explicar por que Jack possui uma personalidade visual própria. Seus efeitos não apresentam a mesma sofisticação ou o mesmo acabamento das criaturas concebidas por Harryhausen, mas continuam sendo parte importante do encanto do filme. Afinal, estamos diante de um período em que a fantasia cinematográfica dependia de uma combinação muito particular de cenários, maquetes, maquiagem, trucagens fotográficas e animação quadro a quadro.
E é justamente aí que Kerwin Mathews se torna uma figura importante.

O ator havia se transformado em um dos rostos mais associados ao cinema fantástico daquela geração. Depois de interpretar Simbad, ele viveria Gulliver em “Os Três Mundos de Gulliver”, de 1960, e ainda participaria de “O Maravilhoso Mundo dos Irmãos Grimm”, lançado no mesmo ano de Jack. Seu tipo físico, sua habilidade para as cenas de ação e aquela maneira bastante característica de interpretar heróis de aventuras fizeram dele um dos protagonistas mais reconhecíveis do gênero naquele período.
Em Jack, portanto, Mathews não está simplesmente interpretando outro personagem. Ele está, de certa forma, voltando ao território cinematográfico que ajudou a tornar popular.
O reencontro com Torin Thatcher também dá ao filme uma curiosa sensação de continuidade. Em Simbad, Thatcher havia criado um vilão que, apesar de sua natureza maléfica, possuía uma presença sofisticada e teatral. Em Jack, Pendragon é ainda mais próximo do arquétipo do feiticeiro de conto de fadas. Thatcher novamente demonstra aquela capacidade de transformar um vilão fantástico em uma presença memorável.
O elenco ainda conta com Judi Meredith como a princesa Elaine, Walter Burke como Garna, Barry Kelley como Sigurd, Dayton Lummis como o Rei Mark e Anna Lee como Lady Constance.
Há também uma curiosidade envolvendo a própria história do filme. Em algum momento, “Jack – O Matador de Gigantes” foi transformado em um musical. Edward Small acrescentou músicas e uma nova trilha vocal, chegando ao ponto de redublar os atores para que as canções pudessem ser incorporadas à versão modificada. A iniciativa estava relacionada à reação da Columbia Pictures às semelhanças entre Jack e Simbad e a Princesa. A versão original, sem as músicas, acabaria recuperada décadas depois.
Tudo isso faz de “Jack – O Matador de Gigantes” mais do que uma simples aventura de fantasia produzida na esteira do sucesso de Simbad. O filme representa um momento muito específico do cinema americano: aquele em que os estúdios perceberam que o público havia descoberto o encanto das histórias de fantasia e começaram a procurar novas maneiras de reproduzi-lo.
Não é preciso colocar Jack no mesmo patamar de Simbad e a Princesa. A comparação, aliás, talvez seja injusta. Simbad tinha Harryhausen, Bernard Herrmann e uma combinação particularmente feliz de talentos. Jack procurava chegar ao mesmo território por outro caminho.
Mas existe algo particularmente simpático nessa tentativa. Kerwin Mathews volta a ser o herói, Torin Thatcher volta a ser o feiticeiro e Nathan Juran volta a dirigir. É quase como se os três tivessem decidido embarcar novamente na mesma aventura, desta vez trocando as noites de Simbad pelos castelos e gigantes de uma velha lenda inglesa.
E talvez seja justamente por isso que o filme continue interessante para quem gosta daquele período do cinema fantástico. “Jack – O Matador de Gigantes” é uma pequena cápsula de uma época em que Hollywood ainda acreditava que um ator, uma boa história de aventuras e alguns monstros animados quadro a quadro podiam levar o público para um mundo completamente diferente.
Bons tempos aqueles…
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
DARKFLIX+ é um serviço de streaming de filmes e séries dos gêneros terror, ficção-científica e fantasia. Baixe o aplicativo DARKFLIX+ no seu celular ou tablet diretamente de sua loja de aplicativos ou acesse pelo site www.darkflixplus.com.br. Para ter acesso ao conteúdo pago basta assinar o serviço por R$ 9,90/mês, ele pode ser pago através de cartões de crédito. A DARKFLIX+ está disponível em diversos sistemas operacionais e dispositivos de Smart TVs, como o Tizen, webOS, Roku, Android TV, Chromecast, além de iOS e Android (mobile), entre outros. Também está disponível para assinatura pela Claro tv+.