O que mais me fascina em “November” não é o Diabo, nem os fantasmas, nem os lobisomens. É a economia.
O horror sempre foi um excelente contador. Enquanto a literatura realista faz planilhas, o sobrenatural faz metáforas. E, em “November”, a metáfora é simples: quando o inverno é longo demais, todo mundo vira empreendedor do impossível.
A aldeia estoniana do filme parece uma reunião de condomínio organizada por Kafka. Ninguém tem nada, todos precisam de alguma coisa e cada habitante desenvolveu seu próprio sistema de fraudes metafísicas. Roubam o barão. Roubam os vizinhos. Roubam os mortos. Se pudessem, roubariam o próprio inverno para revendê-lo no verão.
Os camponeses criam kratts, aquelas engenhocas feitas de ossos, sucata e ferramentas animadas por almas negociadas com o Diabo. São uma espécie de automação rural do século XIX. Um precursor do trabalho terceirizado. A diferença é que, hoje, você vende seus dados para uma plataforma. Lá, vendia a alma. O resultado é parecido.
O curioso é que ninguém no filme parece muito impressionado com o sobrenatural. O Diabo surge e as pessoas negociam com ele como quem reclama do preço da batata. Fantasmas aparecem e recebem menos atenção do que um vizinho atrasando uma dívida. Talvez porque a fome seja sempre mais urgente do que o mistério.
Há uma cena recorrente em muitos folk horrors: a natureza observando silenciosamente os seres humanos. Em “November”, a natureza assiste a tudo com uma expressão de quem já viu coisa pior. A neve cobre os campos. As árvores permanecem imóveis. Enquanto isso, os habitantes se debatem entre paixões impossíveis, trapaças e crenças escolhidas conforme a conveniência do momento.
O cristianismo está disponível. O paganismo também. O Diabo atende sem hora marcada. Cada um monta sua fé como quem escolhe ingredientes num bufê.
No centro de toda essa confusão está Liina, apaixonada por Hans, que ama a baronesa, que parece amar apenas sua própria condição espectral. É uma cadeia de desejos desencontrados que lembra certas redes sociais: todo mundo olhando para alguém que olha para outra pessoa.
“November” sugere uma ideia melancólica. Talvez a diferença entre magia e economia seja apenas de vocabulário. Ambas prometem transformar escassez em abundância. As duas exigem sacrifícios. E costumam cobrar mais do que anunciam.
Os camponeses estonianos descobriram isso cedo. Nós apenas substituímos os kratts por aplicativos e continuamos assinando contratos sem ler as letras miúdas. Inclusive as escritas pelo Diabo.
Título original: November
Lançamento: 2017
País de origem: Estônia, em coprodução com Holanda e Polônia.
Direção: Rainer Sarnet
Duração: 115 minutos
Roteiro: Rainer Sarnet, a partir do romance “Rehepapp ehk November”, de Andrus Kivirähk.
Trilha sonora: Michał Jacaszek
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “November” está disponível na Darkflix+.
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