Existe um tipo de monstro que assusta mais do que os outros. Não o que voa pelos tetos, não o que se desfaz na luz do sol como açúcar na chuva. O que mais assusta é o monstro plausível. O que poderia morar no apartamento do andar de cima. O que sorri no ônibus.
Martin é esse monstro.
O filme de George Romero, lançado em 1977, conta a história de um rapaz de aparência comum que acredita ser um vampiro de 84 anos.
Martin não tem presas, não se dissolve diante de crucifixos, não recua horrorizado quando alguém lhe oferece um dente de alho. Ele olha para o alho e pensa: tempero. O que Martin tem é uma solidão de 84 anos, se é que os 84 anos existem fora da própria cabeça dele.
Romero — o mesmo que ensinou os mortos a caminhar — aqui faz algo mais perturbador: ensina os vivos a duvidar de si mesmos. Martin vive com um primo idoso que o trata como criatura sobrenatural, agitando alhos e cruzes com aquela convicção dos que preferem o mito à realidade. E há algo de irônico e trágico nisso: o velho que acredita em vampiros de verdade, e o rapaz que talvez seja apenas um psicopata que encontrou na mitologia uma narrativa para o que sente.
O filme alterna o presente granulado, em cores, com flashes em preto e branco que são os sonhos de Martin: seduções de outra era, casarões, mulheres em camisolas, tudo que o vampiro clássico deveria habitar. São belas sequências. São também mentiras que Martin conta para si mesmo, ou talvez verdades que nunca poderemos confirmar.
É nessa ambiguidade que mora a inteligência discreta do filme. Romero não resolve. Não explica. Não absolve nem condena com trilha sonora de aviso. Deixa Martin ser Martin: perturbador, às vezes patético, às vezes quase simpático quando telefona para um programa de rádio e confessa seus crimes.
O final (não vou contar, mas vou dizer que é impecável) chega com a lógica cruel das histórias em que ninguém tem razão suficiente para salvar ninguém.
Martin é um filme sobre a ausência de magia. Sobre como é difícil viver num mundo que não tem explicações sobrenaturais para o que sentimos. Sobre como, sem o mito, sobra apenas o homem. E o homem, convenhamos, é o bicho mais assustador de todos.
Título original: Martin
Lançamento: 1977
País de origem: Estados Unidos.
Direção: George A. Romero.
Duração: 95 minutos.
Roteiro: George A. Romero.
Trilha sonora: Donald Rubinstein.
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “O Golem” está disponível na Darkflix+.
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