Existe um ponto do cinema em que o diretor deixa de querer entreter o espectador e passa somente a desejar testá-lo psicologicamente. Anticristo é exatamente esse ponto. Assistir ao filme de Lars von Trier é como aceitar o convite para passar um fim de semana numa cabana isolada oferecida por alguém que claramente deveria estar internado.
O filme começa com a tragédia mais insuportável do mundo: um casal faz sexo enquanto o filho pequeno cai da janela. A cena é filmada em câmera lenta, ao som de uma ária, com uma beleza tão indecente que o espectador quase se sente cúmplice. Lars von Trier parece dizer logo de saída:
— O sofrimento humano pode ser horrível. Mas cinematograficamente fica magnífico.
Depois disso, o filme abandona qualquer compromisso com a sanidade.
O marido, interpretado por Willem Dafoe, resolve tratar sozinho a esposa devastada, vivida por Charlotte Gainsbourg. O sujeito acha razoável levar uma mulher em colapso psicológico para uma cabana isolada no meio da floresta chamada “Éden”.
Mas eles vão.
E então a floresta começa lentamente a enlouquecer junto com eles.
Em filmes comuns, a natureza costuma simbolizar paz, transcendência, renovação espiritual. Em “Anticristo”, ela parece administrada pelo demônio em pessoa. Há raposas falando, cervos carregando fetos mortos e uma sensação permanente de que a própria mata deseja a falência emocional da humanidade.
Von Trier filma tudo como se Bergman tivesse tido um surto psicótico durante um documentário do Discovery Channel.
Muita gente chamou o filme de misógino. Outros o trataram como uma obra-prima sobre culpa, sexo, religião e desespero. A verdade é que “Anticristo” talvez seja uma dessas obras que funcionam como exame psicológico: a reação ao filme revela mais sobre quem assiste do que sobre quem dirigiu.
Há espectadores que enxergam ali uma meditação profunda sobre o luto. Outros enxergam apenas mutilações genitais e pessoas gritando nuas no mato. Ambos têm razão.
O curioso é que, terminado o filme, ninguém comenta a fotografia, os enquadramentos ou a Palma de Ouro de Charlotte Gainsbourg. O debate real é outro: “Mas precisava?”
E talvez essa seja exatamente a intenção de Lars von Trier. Obrigar o espectador a encarar aquilo que o cinema costuma evitar: a possibilidade de que a dor humana não tenha aprendizado, redenção nem metáfora elegante.
Título original: Antichrist
Lançamento: 20 de maio de 2009
País de origem: Dinamarca (coprodução com França, Alemanha, Itália, Suécia e Polônia).
Direção: Lars von Trier.
Duração: 108 minutos.
Roteiro: Lars von Trier.
Trilha sonora: Kristian Eidnes Andersen
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Anticristo” está disponível na Darkflix+.
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