A Cornualha da Hammer não precisava de muito para parecer condenada: um pouco de neblina, um pub silencioso, uma mansão decadente e moradores que recebiam estrangeiros com uma estranha delicadeza. É nesse cenário que “A Serpente”, de 1966, instala seu veneno.
O filme tem ritmo lento, maquiagem discutível e uma criatura que hoje talvez assuste menos do que certas restaurações faciais feitas por computador. Ainda assim, conserva aquela atmosfera que o cinema contemporâneo, apesar de toda a verba, raramente consegue construir. Na Hammer, a pobreza de recursos obrigava a imaginação a trabalhar em turno integral.
Há também uma curiosidade deliciosa no elenco: o dramaturgo Harold Pinter aparece creditado como David Baron, no papel do irmão do protagonista. Sim, o futuro Nobel, mestre das pausas e das conversas em que ninguém diz exatamente o que pretende dizer, passou pela Hammer.
Sua participação é breve. Baron morre cedo, deixando para os outros personagens a tarefa muito britânica de investigar o que todos preferem fingir que não aconteceu.
O verdadeiro monstro, de todo modo, não é a serpente. É a aldeia.
O folk horror britânico sempre soube que comunidades pequenas não são muito acolhedoras. Muitas vezes são apenas lugares onde o ressentimento dispõe de mais espaço e melhor memória. Em Clagmoor Heath, o pub silencia quando um estranho entra, os vizinhos espiam pelas janelas e cada habitante guarda um segredo familiar, religioso ou sanitário.
O horror já mora ali antes da chegada dos protagonistas. Conhece os atalhos, frequenta a igreja e provavelmente deve dinheiro no armazém.
A maldição que transforma Anna em criatura também carrega o desconforto colonial típico do período. A Inglaterra percorreu o mundo recolhendo riquezas, símbolos e traumas. Depois, começou a imaginar que tudo isso poderia voltar para casa. As colônias, afinal, tinham o péssimo hábito de não permanecer apenas nos museus. A serpente vem do exterior, mas o medo é inteiramente britânico.
Hoje, os efeitos artesanais podem parecer ingênuos. Mas existe mais personalidade naquela máscara reptiliana do que em muitos monstros digitais renderizados e esquecíveis.
“A Serpente” talvez não esteja entre as obras-primas da Hammer. Mas pertence a um cinema que sabia transformar economia em estilo, silêncio em ameaça e vizinhos educados demais em motivo suficiente para fugir.
Os ingleses sempre desconfiaram, com razão, de quem jamais levanta a voz. Harold Pinter, aliás, fez uma carreira inteira em cima dessa suspeita.
Título original: The Reptile
Lançamento: março de 1966
País de origem: Reino Unido
Direção: John Gilling
Duração: 90 minutos
Roteiro: Anthony Hinds (sob o pseudônimo John Elder)
Trilha sonora: Don Bank
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “A Serpente” está disponível na Darkflix+.
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