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Crônica: A Rena Branca

Publicado em 4 de Novembro de 2026 por Carlos Castelo

“A Rena Branca” (Valkoinen peura, 1952), do finlandês Erik Blomberg, é uma lenda sámi contada com a economia de quem sabe que o silêncio também ameaça. Rodado na Lapônia, em preto e branco, é daqueles filmes que preferem deixar a neve cobrir o que outros mostrariam.

Pirita, interpretada por Mirjami Kuosmanen, acaba de se casar com Aslak, criador de renas, e logo descobre o que o casamento significa naquelas paragens: esperar. O marido some por longos períodos com o rebanho, a solidão vira desejo, e o desejo, aflição. Ela procura o xamã, na esperança de reconquistar a atenção do homem que a deixou sozinha. O rito, porém, cobra caro. Pirita passa a se transformar em rena branca e a seduzir homens para conduzi-los à morte.

O mais curioso é que o filme não trata a maldição como castigo exterior. Ela nasce de uma carência muito humana, a de quem pediu amor e recebeu uma sentença. Por isso Pirita nunca é apenas monstro: é uma mulher presa àquilo que invocou, e o espectador, em vez de torcer contra ela, acompanha a tragédia com um nó na garganta.

Blomberg vinha da fotografia e do documentário, e isso se vê em cada quadro. A neve, o vento, os espaços vazios e as manadas não funcionam como cenário; são a própria matéria do medo. A Lapônia surge como território de limiar, onde rito, natureza e morte obedecem a regras que os homens apenas pressentem. A transformação da heroína, mostrada com sobriedade quase cerimonial, dispensa efeitos espetaculares. Basta o jogo de luz e sombra, a montagem, o figurino, a sugestão, e a estranheza continua moderna.

Não por acaso, o filme costuma ser lembrado como precursor do folk horror. Seu pavor vem de crenças locais, de práticas xamânicas, de uma sexualidade reprimida e da hostilidade da paisagem. Ao mesmo tempo, tem algo de conto de fadas perverso, e talvez por isso Cannes o premiou em 1953 na categoria de temática lendária, com júri presidido por Jean Cocteau. Há parentesco espiritual com Kuroneko, de Kaneto Shindō, embora aqui tudo seja mais seco, silencioso e visual do que explicativo.

Nos bastidores, a história também tem seu encanto. O roteiro é assinado por Blomberg e por Kuosmanen, sua esposa, que ainda interpreta a mãe de Pirita, uma duplicação que reforça a dimensão mítica e hereditária do destino da personagem. O filme rendeu a ela o Jussi de melhor atriz, além de prêmios para a fotografia e a música. E ainda ganhou o Globo de Ouro de filme estrangeiro de 1956, único longa finlandês a receber a distinção.

No fim, “A Rena Branca” é uma lenda de vampirismo ártico filmada como poesia visual, movida pela melancolia de uma mulher transformada em predadora pelo abandono. Um horror que não grita: congela devagar.

 

Título original: Valkoinen peura

Lançamento: 1952

País de origem: Finlândia

Direção: Erik Blomberg

Duração: 74 minutos

Roteiro: Erik Blomberg e Mirjami Kuosmanen00

Trilha sonora: Einar Englund

 

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “A Rena Branca” está disponível na Darkflix+.

 

 

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