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Crônica: A Árvore da Maldição

Publicado em 14 de Abril de 2026 por Carlos Castelo

William Friedkin nunca foi exatamente o tipo de diretor que pede licença para entrar. Ele arromba a porta, reorganiza os móveis da sua mente e vai embora antes que você perceba que alguma coisa está fora do lugar (como, aliás, já havia feito com “O Exorcista”). Em “A Árvore da Maldição”, porém, ele troca o impacto direto por um incômodo mais sutil, elegante: um sorriso que dura um segundo a mais do que deveria.

Aqui, o terror (uma cruza de “Rosemary’s Baby” com folclore pagão) não chega correndo. Ele já está sentado na sala, cruzando as pernas, esperando ser notado.

A história se instala em um ambiente doméstico, desses saídos de um catálogo de tranquilidade: uma família, uma casa confortável, uma rotina sem grandes surpresas. Até que surge a babá. E, com ela, uma sensação difícil de nomear. Algo entre fascínio e leve pânico, como quando alguém elogia demais a sua casa e você começa a imaginar se deveria esconder as facas.

Ela não invade. Ela vai se encaixando. O que é bem mais perturbador.

Friedkin conduz tudo com uma paciência provocadora. Não há pressa em assustar, porque o verdadeiro horror aqui não depende de sustos, mas da percepção gradual de que algo está profundamente errado. E de que esse “errado” parece confortável em sua própria pele. É um terror que não bate à porta; ele aprende onde você guarda a chave.

E então aparecem as árvores.

Majestosas, antigas, silenciosas, cúmplices. Elas não apenas compõem o cenário. São testemunhas de um ritual que dispensa explicações. Depois de certo ponto, você já não sabe se está assistindo a um filme de terror ou a uma fábula sobre deuses elementais cobrando suas dívidas com juros.

A babá, com sua calma sobrenatural, é o centro gravitacional dessa estranheza. Não há excesso em seus gestos, nenhuma explosão emocional. Ela simplesmente é. Sua presença transforma o cotidiano em algo instável, a realidade dá a impressão de ter decidido testar seus próprios limites.

No fim, “A Árvore da Maldição” não grita. Ele observa. E, nesse olhar prolongado, constrói um desconforto que permanece mesmo depois dos créditos do longa-metragem.

Terminei de assistir ao filme com a impressão de que Friedkin não queria somente assustar. Desejava sugerir que o perigo raramente chega com aviso prévio. Às vezes, ele atende pelo nome de “ajuda doméstica” e tem um currículo impecável.

 

  • Título original: The Guardian
  • Lançamento: 1990
  • País de origem: Estados Unidos
  • Direção: William Friedkin
  • Duração: 92 minutos
  • Roteiro: Stephen Volk, William Friedkin
  • Trilha sonora: Jack Hues

 

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “A Árvore da Maldição” está disponível na Darkflix+.

 

 

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