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Cinema em Perspectiva: Viajando pela Zona Morta

Publicado em 23 de Abril de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Isso é história: se o videocassete não tivesse surgido com força nos anos 80, muitos filmes que consideramos essenciais para aproveitar a Sétima Arte, jamais teriam chegado ao público. Principalmente no Brasil, onde os circuitos de cinema estavam cada vez mais, dependendo de grandes sucessos dos Estados Unidos para se manterem vivo. Foram as fitas piratas, que depois ganharam o decorativo pseudônimo de ‘alternativas’, as responsáveis por trazer os filmes de produtoras independentes como a Cannon, a Vestron, New World, Full Moon e, claro, De Laurentiis, responsável por “A Hora da Zona Morta”, de 1983.

O filme não chegou aos cinemas brasileiros naquela época, porque a Paramount não acreditava no potencial do filme, que não tinha feito uma grande bilheteria nos Estados Unidos. Aliás esse, infelizmente, foi o parâmetro das distribuidoras internacionais aqui no Brasil: rendeu bem nas bilheterias, pode lançar no Brasil. O filme acabou chegando apenas em VHS alternativo, semanas depois do seu lançamento em território americano em 1984.

Outra tendência muito comum no mercado de entretenimento brasileiro era o de usar títulos e expressões de outros títulos para rebatizar os filmes lançados dessa maneira em VHS. “A Hora dos Espanto” (Fright Night) é um exemplo dessa criatividade. O filme foi lançado em agosto de 1985 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil em maio de 1986. A partir desse filme, vários outros seguiram a linha de usar A Hora… para compor o título. Especialmente quando a tradução literal não ajudaria a vender o filme como “Um Pesadelo da Rua Elm” (A Nightmare in Elm St), virou “A Hora do Pesadelo”.

Por isso, quando uma pessoa entrava na locadora e via um título como “A Hora da Zona Morta”, com certeza, ficava curiosa em conhecer a história. Foi o que aconteceu com esse escriba, que já conhecia a obra de Stephen King, uma das melhores adaptação de um livro do mestre do terror no cinema. E o que está por de traz da história do professor John Smith que David Cronenberg transformou num filme cult?

 

O primeiro passo na Zona Morta

A história acompanha Johnny Smith, interpretado por Christopher Walken, um professor que, após um acidente, entra em coma por cinco anos. Ao despertar, descobre possuir uma habilidade incomum: ao tocar outras pessoas, é capaz de visualizar fragmentos do passado, do presente e, sobretudo, do futuro.

Esse dom, longe de ser apresentado como uma dádiva, assume contornos de fardo. À medida que Johnny passa a intervir em eventos — prevenindo crimes e salvando vidas —, o filme desloca seu foco do fenômeno em si para as implicações morais de sua utilização. O ponto culminante surge quando suas visões revelam a ascensão de um político potencialmente responsável por uma catástrofe global, colocando-o diante de uma decisão extrema.

Nesse sentido, “A Hora da Zona Morta” estrutura-se como uma reflexão sobre o livre-arbítrio: se o futuro pode ser conhecido, ele também pode — ou deve — ser alterado?

Um dos aspectos mais notáveis do filme reside na forma como o sobrenatural é integrado ao cotidiano. Cronenberg evita a espetacularização das habilidades psíquicas, optando por uma abordagem sóbria e quase naturalista. As visões de Johnny são tratadas com contenção formal, reforçando a dimensão emocional e psicológica da narrativa.

Essa escolha estética aproxima o espectador da experiência do protagonista, transformando o fantástico em algo inquietantemente plausível. O horror, nesse contexto, não se manifesta por meio de excessos visuais, mas pela consciência das consequências que cada escolha pode desencadear.

 

A transição de David Cronemberg

Conhecido por obras marcadas pelo chamado “body horror”, como “Calafrios” (1975), “Enraivecida na Fúria do Sexo” (1977), “Scanners – Sua mente pode Destruir” (1981) e “Videodrome – Sindrome do Vídeo” (1983), Cronenberg construiu sua reputação explorando as fronteiras entre corpo, tecnologia e identidade. Em “A Hora da Zona Morta”, no entanto, há uma mudança significativa.

O diretor reduz drasticamente a ênfase em transformações físicas grotescas e desloca seu interesse para os estados alterados da mente e seus desdobramentos éticos. Ainda assim, suas preocupações centrais permanecem intactas: a instabilidade da identidade, a tensão entre corpo e consciência e o impacto de forças externas sobre o indivíduo. O resultado é uma obra que, embora mais acessível em termos narrativos, preserva a inquietação filosófica característica de sua filmografia.

Os temas abordados no filme dialogam diretamente com a ideia de poderes da mente como instrumentos ambíguos. A capacidade de prever o futuro não confere controle absoluto — ao contrário, intensifica a percepção de vulnerabilidade.

Johnny Smith emerge, assim, como um herói trágico. Seu percurso é marcado pela perda progressiva: relações afetivas, estabilidade emocional e, em última instância, sua própria possibilidade de uma vida comum. O sacrifício individual torna-se o preço a ser pago por uma intervenção que visa o bem coletivo.

Paralelamente, a figura do político Greg Stillson, interpretado por Martin Sheen, introduz uma dimensão política que amplia o alcance da narrativa. Sua trajetória antecipa discussões contemporâneas sobre lideranças carismáticas e potencialmente destrutivas, reforçando o caráter premonitório da obra.

Mais do que uma história sobre poderes psíquicos, “A Hora da Zona Morta” é uma meditação sobre responsabilidade, escolha e sacrifício. Ao deslocar o foco do “poder” para suas consequências, o filme propõe uma reflexão que transcende o gênero e se insere no campo das questões éticas fundamentais.

Se a obra de Cronenberg, em diferentes momentos, investiga os limites do corpo e da identidade, aqui ela se volta para um dilema igualmente perturbador: o que fazer quando se tem a capacidade de mudar o futuro?

A resposta, como o próprio filme sugere, talvez resida menos no poder em si e mais na disposição de arcar com o peso de suas consequências. “A Hora da Zona Morta” é um filme que merece o seu reconhecimento. Um trabalho simples, feito com dedicação, mostrando um conjunto final empolgante como a decisão final de John Smith sobre o futuro e a vida. O longa está disponível na Darkflix+.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

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