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Cinema em Perspectiva: Não há subúrbio na Cidade das Sombras

Publicado em 19 de Maio de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Antes de assumir a editoria da revista Sci-Fi News, no final dos anos 90, trabalhei na edição brasileira da cultuada Starlog, uma das mais importantes revistas sobre ficção e fantasia já publicadas nos Estados Unidos. Era um período onde raramente tínhamos um lançamento internacional de um filme importante. Geralmente, filmes com pouco potencial de público, chegavam meses depois de sua estreia nos Estados Unidos. Por isso, acompanhar a Starlog americana era fundamental para saber dessas produções que poderiam chegar ou não aos cinemas brasileiros.

Uma delas foi “Cidade das Sombras”…

Lançado em 1998, “Cidade das Sombras”, de Alex Proyas, permanece como uma das obras mais singulares da ficção científica moderna. Ao combinar estética noir, questionamentos filosóficos e uma construção visual ousada, o filme não apenas desafiou convenções narrativas, como também se consolidou, com o tempo, como um marco cult — tanto pelo que apresenta na tela quanto pelo que aconteceu nos bastidores.

O filme acompanha John Murdoch (Rufus Sewell), um homem que desperta sem memória em uma cidade perpetuamente mergulhada na noite. Acusado de assassinatos que não lembra ter cometido, ele inicia uma jornada que rapidamente ultrapassa o campo do suspense policial e mergulha em questões mais profundas: o que define quem somos?

Essa busca pela identidade, em um mundo onde memórias podem ser manipuladas, aproxima o filme de reflexões filosóficas clássicas, de René Descartes a John Locke. Ao mesmo tempo, o roteiro transforma esses conceitos em linguagem visual, criando uma experiência que é tanto intelectual quanto sensorial.

 

A cidade está viva!

 Um dos elementos mais marcantes do filme é sua ambientação. A cidade não é apenas cenário, mas personagem ativo: ruas se reorganizam, prédios crescem e a própria realidade parece maleável. Essa ideia, concebida por Proyas ainda durante a produção de “O Corvo” (1994), traduz visualmente o estado psicológico dos personagens. Em tempo: “O Corvo” é o filme onde Brandon Lee, filho do astro das artes marciais no cinema, Bruce Lee, perdeu a vida durante uma cena de tiroteio, quando uma das armas utilizadas estava com mais carga do que o normal.

Voltando à “Cidade das Sombras”: essa estética dialoga com o expressionismo alemão e com obras como “Metrópolis” (1927), além do cinema noir clássico, especialmente “Relíquia Macabra” (1941), estrelado por Humphrey Bogart. O resultado é um espaço atemporal, repleto de anacronismos deliberados, que reforçam a sensação de deslocamento e confusão.

Embora comece como um filme de suspense e investigação, mostrado através do detetive interpretado por William Hurt e a figura enigmática vivida por Jennifer Connelly, o filme rapidamente se transforma em uma ficção científica conceitual. A introdução dos “Estranhos”, seres capazes de manipular memórias e remodelar a cidade, desloca o conflito para longe da realidade que os personagens conhecem. Mais do que descobrir a verdade sobre os crimes, Murdoch precisa entender a própria natureza da realidade.

 

Bastidores: um filme em disputa

 Se na tela tudo parece instável, nos bastidores não foi diferente. A produção foi marcada por divergências criativas, especialmente com a New Line Cinema, que exigiu a inclusão de uma narração explicativa no início do filme, gravada por Kiefer Sutherland. Proyas sempre se opôs à decisão, argumentando que ela comprometia o mistério da narrativa. Anos depois, na versão do diretor, a narração foi removida, restaurando a proposta original: colocar o espectador tão perdido quanto o protagonista.

O grande problema sempre recai sobre a visão do diretor. O que o diretor queria contar com a história que acabou indo para o cinema, mesmo a contragosto do criador. Dois exemplos claros: a versão final de “Blade Runner – O Caçador de Androides” (1982), não foi a apresentada nos cinemas quando o filme foi lançado. Ela não tinha a ambiguidade discutível sobre se Deckard, feito por Harrison Ford era ou não um replicante. O mesmo aconteceu com a versão do diretor de “Amadeus”, de Milos Forman, feito em 1984. Além de longa, ela deixava determinadas cenas muito explicadas, não deixando o público tirar suas conclusões sobre, por exemplo, o encontro entre Salieri (F. Murray Abraham) e a esposa de Amadeus (Tom Hulce), Constanze (Elizabeth Berridge), desnecessariamente reveladora.

 

A Construção do legado visual e o elenco

Grande parte do filme foi rodada em cenários construídos em estúdio, em Sydney (Austrália), permitindo controle total sobre enquadramentos e arquitetura. Essa escolha não só definiu a estética do longa, como teve impacto direto em outra obra: vários desses cenários foram reutilizados na produção de “Matrix” (1999).

A conexão entre os dois filmes vai além do material físico. Ambos exploram a ideia de uma realidade fabricada — mas enquanto “Matrix” aposta na ação e na rebelião, “Cidade das Sombras” se mantém mais introspectivo e filosófico. Outro filme que mergulha em realidades alternativas é O “13º Andar”, também lançado em 1999.

A linguagem do filme reforça sua proposta inquietante. Com uma média de cortes de apenas 1,8 segundo por plano, a montagem cria um ritmo fragmentado e quase hipnótico. Nos detalhes de produção, surgem soluções inventivas: uma seringa gigante foi construída para closes mais detalhados; a palavra “tuning” (“ajuste”) foi criada para descrever o processo de manipulação da realidade; e a iluminação buscou um naturalismo raro, mesmo em um filme que se passa inteiramente à noite.

A escolha de Rufus Sewell como protagonista foi estratégica. Pouco conhecido à época, ele ajudava a preservar o mistério em torno de Murdoch. Já o papel de Mr. Hand foi escrito sob medida para Richard O’Brien, reforçando o tom excêntrico da narrativa. Entre seus trabalhos em sua carreira, o ator britânico atuou na série Robin de Sherwood (1986) e nos filmes “Revolução” (1985) e “Para Sempre Cinderela” (1998).

Outro detalhe significativo está na personagem de Emma: na versão original, Jennifer Connelly dubla canções interpretadas por outra cantora; na versão do diretor, sua própria voz é utilizada — uma mudança sutil que reforça a autenticidade emocional.

Na época do lançamento, “Cidade das Sombras” dividiu opiniões e enfrentou dificuldades para alcançar o grande público. Exibições de teste revelaram reações confusas, e o estúdio pressionou por simplificações. Com o tempo, porém, o filme foi reavaliado. O crítico Roger Ebert o considerou o melhor filme de 1998, e sua reputação cresceu como uma obra à frente de seu tempo. Rubens Ewald Filho considerou o clima sombrio e a estética desse ficção-científica noir os pontos positivos de “Cidade das Sombras”.

 

Um legado em constante transformação

 Hoje, “Cidade das Sombras” é visto como um elo entre o cinema noir clássico e a ficção científica existencial que dominaria o final dos anos 1990. Sua influência pode ser percebida em diversas obras posteriores, mas seu impacto mais duradouro talvez esteja em sua ousadia. Mais do que oferecer respostas, o filme propõe uma experiência: um mergulho em um mundo onde memória, identidade e realidade são construções frágeis — e onde, talvez, a única verdade seja a dúvida.

No fim, “Cidade das Sombras” não oferece respostas fáceis. Sua resolução, com a criação de um novo espaço, finalmente iluminado, pode ser vista tanto como libertação quanto como continuidade da ilusão. Um lugar onde um subúrbio pode ser muito mais do que um lugar para ver o sol nascer. O longa “Cidade das Sombras” está disponível na Darkflix+! Você tem coragem?

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

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