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Roger Corman e Edgar Allan Poe: Os Pesadelos que Viraram Cinema

Publicado em 6 de Novembro de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Nos anos 1970, as transmissões via satélite permitiram que os brasileiros acompanhassem a conquista do tricampeonato mundial de futebol, no México, e assistissem, pela primeira vez em cores, à tradicional Festa da Uva de Caxias do Sul. A Rede Globo aproveitou esse momento para investir no cinema em casa, criando diferentes sessões de filmes, como a Première Mundial, exibida nas noites de sábado. Entre elas, havia uma dedicada ao suspense, ao terror e à ficção científica: a Sessão Mistério.

Foi nessa sessão que o lendário Roger Corman chegou aos lares brasileiros com obras marcantes como “O Solar Maldito” (1960), “A Mansão do Terror” (1961), “Obsessão Macabra” (1962) e “O Corvo” (1963), um exemplo marcante da combinação entre horror e comédia. Essas produções faziam parte de um ciclo de filmes inspirados, em diferentes graus, na obra de Edgar Allan Poe e realizados por Corman para a American International Pictures (AIP), companhia criada em 1954 e conhecida por seus filmes de gênero de baixo orçamento.

Corman queria realizar um filme de horror gótico e encontrou na obra de Poe uma fonte de inspiração ideal. Ainda adolescente, descobriu “A Queda da Casa de Usher”, publicado em 1839, como leitura escolar e ficou fascinado pelo universo sombrio do escritor. Anos depois, quando surgiu a oportunidade de realizar um filme de horror com um orçamento um pouco maior, soube por onde começar.

Lançado no Brasil como “O Solar Maldito” (House of Usher, 1960), o filme apresenta uma família dominada pela decadência, pela doença e pela destruição. A produção demonstrou que era possível criar cenários elaborados, explorar a fotografia em cores e construir uma atmosfera gótica sem depender dos recursos financeiros de um grande estúdio.

O sucesso do filme abriu caminho para novas produções. Corman percebeu que os textos de Poe ofereciam mais do que histórias de fantasmas ou situações macabras: traziam personagens psicologicamente perturbados, espaços carregados de simbolismo e conflitos nos quais a culpa, o medo e a obsessão se tornavam forças tão ameaçadoras quanto qualquer criatura sobrenatural.

Foi assim que o cineasta começou a imprimir sua própria identidade ao material literário. Em vez de simplesmente reproduzir os contos, ele e seus roteiristas ampliavam situações, criavam personagens e transformavam narrativas relativamente curtas em longas-metragens capazes de sustentar uma atmosfera visual e emocional.

Corman transitou por diferentes gêneros, do terror à ficção científica, passando por filmes juvenis que exploravam a cultura da praia, as motocicletas e a rebeldia da juventude americana. Mas foi ao se aproximar da literatura de Edgar Allan Poe que encontrou uma combinação particularmente feliz entre suas ambições artísticas e as possibilidades comerciais do cinema de gênero.

Entre 1960 e 1965, dirigiu oito filmes geralmente reunidos sob o nome de ciclo Poe. Sete se baseavam em contos ou poemas de Poe; o outro, “O Castelo Assombrado” (The Haunted Palace, 1963), tinha uma trama inspirada em H. P. Lovecraft, embora seu título viesse de um poema de Poe. Vincent Price protagonizou sete dos oito filmes; a exceção foi “Obsessão Macabra”, estrelado por Ray Milland. Em conjunto, essas produções ajudaram a renovar o horror gótico para uma nova geração de espectadores.

 

Vincent Price, o rosto do horror de Corman

Falar desse ciclo sem destacar Vincent Price seria praticamente impossível. Com sua voz marcante, seus gestos teatrais e a capacidade de alternar elegância e descontrole, o ator encontrou em Corman um diretor disposto a explorar todas as possibilidades de sua presença em cena. Price já tinha uma carreira consolidada em Hollywood e participara de filmes como “A Canção de Bernadette” (1943), “Laura” (1944), “Museu de Cera” (1953), “Os Dez Mandamentos” (1956) e o clássico “A Mosca da Cabeça Branca” (1958).

A parceria começou em “O Solar Maldito” e prosseguiu em boa parte do ciclo. Price interpretou homens atormentados por segredos familiares, medos irracionais, desejos de vingança e obsessões que os conduziam à própria destruição. Não precisava recorrer apenas à ameaça física: muitas vezes, bastavam sua maneira de falar, o olhar inquieto ou uma mudança brusca de expressão para transformar uma cena em algo perturbador. Corman compreendeu que a força de Price estava justamente nessa combinação de sofisticação e exagero, perfeita para o universo gótico que os filmes procuravam construir.

Há também uma qualidade teatral nessas interpretações. Os personagens parecem viver permanentemente no limite, como se estivessem prestes a perder o controle sobre si mesmos. Em um universo no qual a razão frequentemente cede espaço à loucura, Price tornou-se o intérprete ideal. Até na comédia de humor negro “O Corvo” (1963), em que contracena com Boris Karloff e Peter Lorre, o ator surpreende ao transitar entre o macabro e o cômico. O filme usa o poema de Poe como ponto de partida, mas expande livremente sua premissa. O resultado é memorável.

A exceção mais evidente à presença de Price no ciclo foi “Obsessão Macabra” (The Premature Burial, 1962), protagonizado por Ray Milland. O ator assumiu o papel principal em uma história dominada pelo medo de ser enterrado vivo, um dos temas mais conhecidos da obra de Poe. A ausência de Price chama a atenção dentro da série, mas Milland oferece uma interpretação convincente de um homem consumido pela própria imaginação. Sua atuação transmite inquietação sem depender da teatralidade mais associada a Price.

 

O Legado de Corman

O ciclo inspirado em Edgar Allan Poe representa uma das fases mais memoráveis da carreira de Roger Corman, mas não deve ser visto como uma experiência isolada. O cineasta continuou trabalhando em diferentes gêneros e produções, mantendo a reputação de realizador capaz de encontrar soluções criativas diante de limitações financeiras e de tempo. Também produziu filmes de monstros gigantes que chegaram à programação do canal americano Syfy no século 21, como “Sharktopus” — sobre uma criatura que combina tubarão e polvo — e “Piranhaconda”.

Sua importância também está ligada às oportunidades que ofereceu a profissionais que posteriormente se tornariam figuras importantes do cinema americano. Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e outros nomes passaram pelo universo de produção de Corman, que frequentemente permitia aos jovens realizadores aprender na prática, experimentar e assumir responsabilidades.

No ciclo Poe, essa mentalidade aparece na maneira como o diretor reuniu roteiristas competentes, atores expressivos — Jack Nicholson também participou desse universo —, cenários elaborados e uma identidade visual coerente, sem transformar os filmes em meras cópias uns dos outros.

Corman compreendeu que o horror não precisava depender de orçamentos gigantescos. Uma casa em ruínas, uma interpretação intensa, uma fotografia bem planejada e uma história capaz de explorar os medos mais profundos do espectador podiam ser suficientes para criar algo duradouro.

Ao revisitar esses filmes, disponíveis na Darkflix+, percebemos que sua força não está apenas nas adaptações de Edgar Allan Poe, mas também na liberdade com que o cineasta transformou literatura em cinema. Entre a tragédia gótica e a comédia macabra, entre Vincent Price e Ray Milland, Roger Corman construiu um universo próprio — um lugar em que a imaginação sempre encontrou maneiras de superar as limitações da produção.

Talvez essa seja justamente uma de suas maiores contribuições: provar que, quando existe uma ideia forte por trás da câmera, até os corredores mais sombrios de uma mansão maldita podem se transformar em momentos inesquecíveis da história do cinema.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

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