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Crônica: A Inocente Face do Terror

Publicado em 3 de Outubro de 2026 por Carlos Castelo

O verão de 1935, numa fazenda de Connecticut, tinha uma brincadeira: fechar os olhos, entrar na pele de outro bicho, de outro vizinho, de qualquer coisa que respirasse, e depois voltar. Foi a avó Ada quem ensinou aos netos gêmeos, e é o tipo de jogo que parece inofensivo até o instante em que alguém para de voltar de dentro do outro. É aí que mora “A Inocente Face do Terror”. E é por aí que ele nos pega.

Robert Mulligan, o mesmo que nos deu Atticus Finch, aqui vira as costas para a luz do bem e mergulha nessa fazenda, entre gêmeos de nove anos e mortes que começam a se acumular na vizinhança feito moscas. Bonito, o jogo da avó, até que se pergunta: e se o outro for você mesmo, ou pior, a parte de você que prefere não reconhecer?

Aqui está o truque do filme, e o motivo pelo qual me interessa: ele não explica, e não pede desculpas por isso. Deixa a sujeira embaixo do tapete da fazenda, entre as brincadeiras de infância e o que vai se revelando devagar. O terror rural, quando bem-feito, não precisa de trilha sonora dissonante nem de closes em rostos deformados. Basta insinuar que a inocência é uma fachada tão bem pintada quanto o celeiro. E que atrás dela mora algo que ninguém, nem os adultos da história, nem nós, quer nomear.

Há uma tradição inteira de crianças ameaçadoras no cinema. “A Semente Maldita” é a prima mais óbvia, mais espalhafatosa, mas “A Inocente Face do Terror” evita o clichê do menino-diabo com uma sutileza quase covarde: aqui a maldade, se é que existe, nasce do luto, da fantasia sem freio, da incapacidade humana de processar a perda sem inventar uma segunda pessoa para culpar. É mais fácil, sempre foi, ter um irmão do que admitir que a gente é capaz de certas coisas sozinho.

É um filme lento, dirão alguns. Mas a lentidão é o método: Mulligan filma o verão americano com uma ternura de cartão-postal exatamente para que cada rachadura doa mais quando aparece. No final, resta a sensação de que o mal não mora em nenhum monstro específico, mas na distância entre o que uma família finge ser e o que ela sempre soube.

Vale a sessão. Só não faça a brincadeira da avó Ada antes de dormir.

 

Título original: The Other.

Lançamento: 26 de maio de 1972, nos Estados Unidos.

País de origem: Estados Unidos.

Direção: Robert Mulligan.

Duração: 108 minutos.

Roteiro: Thomas Tryon.

Trilha sonora: Jerry Goldsmith

 

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “A Inocente Face do Terror” está disponível na Darkflix+.

 

 

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