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Crônica: Sob o domínio do medo

Publicado em 4 de Setembro de 2026 por Carlos Castelo

O filme “Sob o Domínio do Medo” faz uma coisa bem desagradável aos seus espectadores: primeiro lhes dá um herói, depois pergunta por que estávamos torcendo por ele.

David Sumner, o matemático interpretado por Dustin Hoffman, é o tipo de homem que acreditaria que qualquer conflito pode ser resolvido com argumentos, desde que ninguém interrompa sua linha de raciocínio. Americano, intelectual, deslocado numa aldeia inglesa, ele parece ter escolhido o pior lugar possível para exercer sua vocação para a racionalidade.

Ao redor dele, homens bebem, provocam, observam sua mulher e consideram a civilização um costume importado das cidades.

David reage como costumamos imaginar que reagiríamos: tenta não reagir.

É nesse ponto que o diretor Sam Peckinpah começa a preparar sua armadilha.

Porque “Sob o Domínio do Medo” não é um filme sobre violência. É sobre o intervalo antes dela. Mostra aquele período constrangedor em que uma pessoa ainda acredita estar acima da brutalidade enquanto ela já está escolhendo a melhor porta por onde entrar.

A casa de David torna-se então mais do que uma residência. Súbito, vira fronteira, fortaleza, último argumento.

E é provável que não exista nada mais perigoso do que um intelectual quando a conversa acaba.

O grande desconforto do filme está nisso: quando por fim David reage, o espectador sente um alívio que gostaria de não sentir. Afinal, agora o homem humilhado está se defendendo. Há invasores, uma esposa ameaçada e território. Tudo oferece uma justificativa confortável.

Peckinpah, porém, vai retirando esse conforto aos poucos.

A violência deixa de parecer apenas necessária. Começa a parecer prazerosa. Para David e, perigosamente, para nós.

É por isso que o filme envelheceu sem ficar velho. Seu núcleo permanece venenoso.

A pergunta continua viva: o que separa um homem civilizado de um bárbaro? Apenas a oportunidade?

No início, David acredita em equações. No fim, acredita em armadilhas, fogo, armas e golpes improvisados.

Não sabemos exatamente se ele mudou ou se apenas “apareceu”.

Quando deixa a casa destruída, depois da carnificina, há qualquer coisa de terrível na paz de seu rosto.

Lembra um homem que resolveu um problema. Só não sabemos mais qual.

 

Título original: Straw Dogs.

Lançamento: 25 de novembro de 1971.

País de origem: Reino Unido e Estados Unidos.

Direção: Sam Peckinpah.

Duração: 113 minutos.

Roteiro: Sam Peckinpah e David Zelag Goodman, baseado no romance The Siege of Trencher’s Farm, de Gordon M. Williams.

Trilha sonora: Jerry Fielding.

 

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Sob o Domínio do Medo” está disponível na Darkflix+.

 

 

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