• Cinema em Perspectiva
  • Crônica
  • Filmes

Pasolini e Salò: o que aconteceu nos 120 Dias de Sodoma e Gomorra

Publicado em 4 de Setembro de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Quando comecei a navegar pela Darkflix+, fiquei fascinado pelo acervo. Não apenas pelos grandes momentos do cinema que estavam lá, mas também preciosidades da ficção-científica, do suspense, dos monstros da Universal e até mesmo o terrir de Abbott e Costello. Uma variedade de conteúdo para cinéfilo nenhum deixar de frequentar esse canal streaming.

A minha surpresa, contudo, foi descobrir “Salò, ou os 120 Dias de Sodoma”, a última obra do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini! O que uma obra densa e pesada, adaptada do original do Marques de Sade, escrita no século 18 e censurada no Brasil, estava no acervo fazendo da Darkflix+?

Antes de conhecer o filme de Pasolini, conheci Sade, um homem preso na Bastilha que, em 22 dias, escreveu nas piores condições possíveis, sua visão dos bastidores da aristocracia francesa pós-revolução. Foi em uma pequena livraria do centro de São Paulo no final dos anos 70, que tropecei com “Os 120 Dias de Sodoma”.

Não consegui ler o livro inteiro. A curiosidade de ter o livro tinha relação com o cineasta italiano Paolo Pasolini, que ganhou as páginas dos jornais após ser assassinado pelo amante em 1975, mesmo ano em que lançou Salò. O que consegui ler da obra de Sade, não conseguia imaginar como alguém faria um filme daquelas páginas, no mínimo, bizarra. Mas ele fez e quando o filme estreou, os críticos do mundo inteiro colocaram Salò como o filme mais odiado do mundo.

Não tinha ideia do que seria o filme. Vários filmes de Pasolini haviam sido censurados pelo regime militar na época. A censura começou a ser abrandada no começo dos anos 80, abrindo a porta para várias obras que tinham ganho o Selo de Proibida sua Exibição no Brasil, como “A Batalha de Argel” (1966), “Z” (1969), “Queimada” (1969), “Laranja Mecânica” (1971), “O Último Tango em Paris” (1972), e claro, vários filmes de Pasolini como a Trilogia da Vida formada por “O Decamerão” (1971), “Os Contos de Canterbury” (1972) e “As Mil e Uma Noites” (1974), além de Salò.

Na 5ª Mostra de Cinema de São Paulo, de 1981, os organizadores conseguiram trazer uma cópia de Salò. A sessão única estava lotada. A cada nova sequência, era possível sentir no ar uma surpresa desagradável com o que Pasolini estava fazendo com aquela história. Pasolini colocou a história que Sade escreveu dentro da Bastilha, durante a Segunda Guerra Mundial, quando quatro figuras poderosas do fascismo, encurralaram nove adolescentes e os submeteram a cento e vinte dias de torturas.

Não conseguia entender, naquela época, como um cineasta que produzira três fabulosos momentos divertidos sobre a vida, imaginou destruir essa mesma vida numa alegoria sobre fascismo, prazer, degradação e morte? Salò não teve uma carreira lucrativa no circuito brasileiro, assim como em outros territórios. Seu faturamento nas bilheterias não ultrapassou os dois milhões de dólares.

Com o tempo, outras análises transformaram Salò numa obra considerada transgressora. Não se transformou em obra-prima nem em cult, mas no filme que encerrou uma carreira brilhante de um cineasta italiano que marcou seu nome no cinema, pela vida e não pela morte.

Você, leitor, deve estar se perguntando, quando o Paulo Gustavo vai falar sobre Salò dentro da Darkflix? A resposta não é simples…

É difícil assistir a “Salò, ou os 120 Dias de Sodoma” sem estabelecer uma relação imediata com os três filmes que o antecederam na carreira de Pier Paolo Pasolini. Em “O Decamerão” (1971), “Os Contos de Canterbury” (1972) e “As Mil e Uma Noites” (1974), reunidos posteriormente como a “Trilogia da Vida”, o diretor italiano havia encontrado no corpo, no sexo, no desejo e na cultura popular uma celebração da existência. Pouco depois, esse universo desapareceria completamente.

Salò, lançado em 1975, é quase a negação daqueles filmes. O corpo que antes representava liberdade agora pertence ao poder. O sexo deixa de ser prazer para se transformar em instrumento de dominação. O desejo desaparece e dá lugar à violência, à humilhação e à destruição sistemática da individualidade.

Pasolini havia se tornado profundamente crítico da sociedade de consumo e acreditava que o novo capitalismo estava produzindo uma forma de controle mais eficiente do que a repressão tradicional. O indivíduo já não precisava ser apenas proibido de fazer alguma coisa: seus desejos poderiam ser transformados em mercadoria. É nesse contexto que surge sua aproximação com o Marquês de Sade.

Pasolini não adaptou “Os 120 Dias de Sodoma” de uma maneira simples. Ele utilizou a estrutura do romance de Sade para construir outra obra. Os quatro libertinos do livro são transportados para a Itália fascista dos últimos anos da Segunda Guerra Mundial e transformados em representantes de diferentes formas de poder. A escolha da República Social Italiana de Salò não é apenas histórica: ela permite ao diretor associar o universo sadiano à experiência concreta do fascismo. O sexo, portanto, não é o verdadeiro assunto do filme.

O que interessa a Pasolini é mostrar o momento em que um ser humano deixa de ser considerado pessoa e passa a ser tratado como objeto. Os jovens aprisionados pelos quatro poderosos não possuem mais autonomia sobre seus corpos. Eles são escolhidos, classificados, submetidos a regras e finalmente destruídos.

A organização do horror é justamente uma das características mais perturbadoras de Salò. Não existe uma explosão permanente de violência. Existe um sistema. Há regras, hierarquia, cerimônias e procedimentos. A perversidade é administrada quase burocraticamente. E talvez seja aí que Pasolini encontre sua imagem mais assustadora do fascismo: não no monstro descontrolado, mas no homem perfeitamente organizado para destruir outro ser humano.

Podemos compreender perfeitamente a intenção política de Pasolini e, ainda assim, questionar sua eficácia cinematográfica. O diretor pretendia que o espectador enxergasse a relação entre poder, fascismo, violência e mercantilização do corpo. Entretanto, a brutalidade de determinadas cenas é tão extrema que existe o risco de o espectador deixar de pensar sobre aquilo que está sendo representado e simplesmente reagir ao que está vendo.

Pasolini queria construir uma alegoria sobre o poder. Mas Salò também pode ser experimentado simplesmente como uma sucessão de imagens intoleráveis. É possível defender a tese política de Salò sem necessariamente considerar bem-sucedida sua forma cinematográfica. Também é possível reconhecer a importância histórica do filme sem confundi-la com prazer ou qualidade estética. Essa talvez seja a armadilha de boa parte das discussões sobre a obra: transformar sua intenção em uma espécie de certificado de importância. Pasolini tinha algo importante a dizer. Isso não significa que toda escolha feita para dizê-lo seja necessariamente eficaz.

Décadas depois de sua realização, a obra continua sendo discutida, censurada, estudada e lembrada. Mas permanece uma pergunta incômoda: o que sobreviveu com mais força — a alegoria política de Pasolini ou o impacto das imagens que ele criou para expressá-la? Como o mesmo diretor que havia celebrado a liberdade do corpo e a vida chegou a um filme tão sombrio e violento?

Uma possível resposta seria que aquele Pasolini que celebrara a vida, havia sido apropriado pelo mercado, pelo poder e pela ideologia. O paraíso da Trilogia da Vida havia desaparecido. Restava mostrar o inferno. Talvez porque Salò seja justamente o resultado da perda daquela esperança. Assistir o filme é como ler a frase que está na entrada do Inferno, descrito por Dante Alighieri em 1304: “Abandonai toda esperança, vós que entrais”.

Salò não precisa ser aceito para ser compreendido. E compreender sua proposta não obriga o espectador a absolvê-la de suas próprias limitações. É um filme complicado, denso e agressivo. Seu contexto político poderia caber em qualquer distopia ou a história de um grupo de monstros que decidiu revelar aos humanos como eles são frágeis.

Salò é muito mais do que uma posição política ou social. É um filme que revela o pior do ser humano, seus desejos mais assustadores e sinistros. Sem precisar de maquiagens ou efeitos visuais como qualquer filme básico de terror. A criação desse monstro feito por Pier Paolo Pasolini é a concretização do pior dos pesadelos. É como Dorian Gray olhar para o espelho sabendo que a verdadeira realidade esconde algo muito mais do que sobrenatural.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

DARKFLIX+ é um serviço de streaming de filmes e séries dos gêneros terror, ficção-científica e fantasia. Baixe o aplicativo DARKFLIX+ no seu celular ou tablet diretamente de sua loja de aplicativos ou acesse pelo site www.darkflixplus.com.br. Para ter acesso ao conteúdo pago basta assinar o serviço por R$ 9,90/mês, ele pode ser pago através de cartões de crédito. A DARKFLIX+ está disponível em diversos sistemas operacionais e dispositivos de Smart TVs, como o Tizen, webOS, Roku, Android TV, Chromecast, além de iOS e Android (mobile), entre outros. Também está disponível para assinatura pela Claro tv+.