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Crônica: Quadrilha de sádicos

Publicado em 10 de Agosto de 2026 por Carlos Castelo

Muitos filmes envelhecem como vinho. Outros, que nem leite. E há aqueles que envelhecem como uma faca esquecida no quintal: enferrujam, escurecem, mas continuam cortando. “Quadrilha de Sádicos”, de Wes Craven, pertence a essa última categoria.

Revê-lo hoje é descobrir que o verdadeiro monstro nunca foi apenas a família de canibais escondida entre as pedras do deserto de Nevada. O horror começa bem antes, quando uma família de classe média acredita que um mapa basta para explicar o mundo. A estrada termina, o carro quebra e, de repente, todas as certezas da civilização evaporam sob um sol impiedoso.

O deserto de Craven não é uma paisagem. Está mais para um estado de espírito. Não oferece árvores para esconder, esquinas para fugir ou vizinhos para pedir ajuda. É apenas horizonte. E um horizonte pode ser uma coisa assustadora quando não promete nada.

Filmado com poucos recursos, “Quadrilha de Sádicos” nunca tenta esconder sua origem modesta. Ao contrário. Sua pobreza estética acaba se transformando em linguagem. A fotografia é seca. Os cenários, inacabados. A violência surge sem música heroica nem coreografia. Tudo transmite a impressão de que aquilo poderia ter sido encontrado por acaso numa velha câmera Super 8 abandonada num porão.

Wes Craven compreendia uma verdade desconfortável: a civilização é uma casca fina. Basta quebrá-la para que algo muito antigo venha à tona.

É isso que torna o filme mais perturbador do que muitos filmes sofisticados produzidos décadas depois. Não se trata apenas de sobreviver aos monstros, mas de perceber que a sobrevivência cobra um preço. À medida que a história avança, a fronteira entre vítimas e algozes começa a borrar. Quem mata para viver continua sendo inocente? Até onde vai a moral quando ela deixa de ser protegida pela polícia, pelas leis ou pela distância segura entre o sofá e a tela?

Talvez por isso “Quadrilha de Sádicos” permaneça vivo quase cinquenta anos depois. Não porque seus efeitos especiais resistiram ao tempo (eles claramente não resistiram). Nem porque suas atuações sejam impecáveis. Mas porque existe, sob toda aquela poeira e sangue, uma pergunta que continua atual.

O que sobra do ser humano quando desaparecem todas as testemunhas?

O terror de Wes Craven nunca esteve apenas nas colinas. Estava na suspeita de que elas talvez fossem apenas um espelho. E que, se olhássemos por tempo suficiente para aquele deserto silencioso, acabaríamos vendo alguma coisa nossa caminhando entre as pedras.

 

Título original: The Hills Have Eyes

Lançamento: 22 de julho de 1977

País de origem: Estados Unidos

Direção: Wes Craven

Duração: 89 minutos

Roteiro: Wes Craven

Trilha sonora: Don Peake 

 

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Quadrilha de Sádicos” está disponível na Darkflix+.

 

 

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