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Cinema em Perspectiva: Abbott e Costello e os Monstros da Universal

Publicado em 28 de Julho de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Os anos 70 foram muito importantes para os filmes de Suspense, Ficção-Científica, Terror e Humor na televisão brasileira. Graças a uma iniciativa da TV Bandeirantes, duas sessões de cinema na telinha foram criadas e se tornaram momentos marcantes na História da TV no Brasil.

A primeira delas foi o Cine Mistério, onde foram exibidos nas noites de sábados, grandes filmes de suspense e terror, como os filmes dos monstros da Universal, Drácula, Lobisomem, A Múmia e claro, o monstro criado pelo Dr. Victor Frankenstein. Além de diversas produções desses gêneros feitos em outros países como Inglaterra e Itália. Tudo para tornar o sábado à noite mais assustador e divertido.

A Bandeirantes também foi a responsável por trazer uma das duplas de humoristas que fizeram sucesso no cinema durante os anos 40 e 50, e que pouca gente conhecia: Bud Abbott e Lou Costello. Os dois consolidaram as tardes de sábado com comédias hilariantes, além de aproveitar que estavam sob contrato na Universal Pictures, onde puderam criar histórias junto com os monstros que o estúdio já fazia sucesso no cinema.

Foi nessa sessão que o público brasileiro pode conhecer um de seus maiores sucessos, Abbott e Costello encontram Frankenstein (também conhecido Abbott e Costello às Voltas com Fantasmas), lançado em 1948, trazendo a dupla de comediantes enfrenando a trindade dos monstros da Universal, o Conde Drácula, o lobisomem americano e o monstro construído pelo Dr. Frankenstein.

Antes de falar dessa preciosidade da História do Cinema, é importante conhecer quem foi Bud Abbott e Lou Costello, representantes de uma das fases mais populares da comédia norte-americana do século XX.

 

Das trupes de vaudeville ao rádio

Antes da fama em Hollywood, Abbott e Costello construíram carreira no chamado vaudeville — o tradicional circuito de espetáculos populares dos Estados Unidos que misturava música, humor e apresentações variadas. Foi no vaudeville que também vieram os Irmãos Marx e Oliver Hardy e Stan Laurell, conhecidos mundialmente como “O Gordo e O Magro”.

Em sua formação tradicional, Bud Abbott atuava como o “escada” da dupla: o personagem sério, rápido e sarcástico que conduzia os diálogos. Já Lou Costello assumia o papel do ingênuo atrapalhado, infantil e explosivo, criando um contraste perfeito para o humor físico e verbal.

A química entre os dois surgiu nos anos 1930, quando começaram a trabalhar juntos em apresentações ao vivo. O timing preciso dos diálogos e a velocidade das piadas logo chamaram atenção das rádios americanas, especialmente graças ao célebre esquete “Who’s on First?”, considerado até hoje um dos maiores números de humor da história do entretenimento. Quer conhecer a origem desse esquete, procure no YouTube, onde ele está disponível.

O sucesso radiofônico abriu as portas de Hollywood no início dos anos 1940. Contratados pela Universal Pictures, Abbott e Costello rapidamente se transformaram em campeões de bilheteria durante os anos da Segunda Guerra Mundial.

Filmes como “Ordinário, Marche!” (1941), “Segure o Fantasma” (1941) e “Cavaleiros da Galhofa” (1942) ajudaram a consolidar o modelo da dupla: histórias simples, ritmo acelerado e situações absurdas que misturavam pastelão, trocadilhos e humor físico. Enquanto Bud Abbott funcionava como o homem aparentemente racional, Lou Costello era o caos ambulante que desmontava qualquer lógica da narrativa. Uma fórmula usada pela dupla Dean Martin e Jerry Lewis em “Amigo da Onça”, de 1949. Mas isso é outra história.

O período também marcou a ascensão de Costello como uma das figuras cômicas mais populares dos Estados Unidos. Seu estilo influenciou diversos artistas posteriores, incluindo comediantes da televisão americana dos anos 1950 e 1960.

 

O humor popular e a América da guerra

 Durante a Segunda Guerra Mundial, Abbott e Costello se tornaram símbolos do entretenimento americano. Seus filmes ofereciam leveza em meio ao clima de tensão do conflito mundial. Muitas produções utilizavam cenários militares ou situações patrióticas, aproximando a dupla do público popular e das tropas americanas. A Universal percebeu rapidamente o potencial comercial dos dois e passou a produzir longas em ritmo acelerado. Em poucos anos, Abbott e Costello estavam entre os artistas mais lucrativos do estúdio.

No final dos anos 1940, porém, começaram a surgir sinais de desgaste. O humor pastelão já enfrentava concorrência de novos estilos cômicos, enquanto a televisão começava a transformar o consumo de entretenimento. Problemas pessoais também afetaram a parceria. Lou Costello sofreu com questões familiares e de saúde, enquanto as relações profissionais entre os dois ficaram cada vez mais tensas. Mesmo assim, continuaram produzindo filmes que mantinham grande popularidade junto ao público.

 

A união entre horror e comédia

E aí chegamos ao clássico do terrir “Abbott e Costello encontram Frankenstein”. O grande mérito do filme foi tratar os monstros com respeito. Diferente de uma simples paródia, o roteiro preserva o clima sombrio das produções de horror da Universal, enquanto Abbott e Costello funcionam como elementos de desordem dentro daquele universo. Isso permitiu que o longa agradasse tanto fãs de terror quanto amantes da comédia. A produção também marcou o retorno de Bela Lugosi ao papel de Drácula no cinema, algo que ajudou a transformar o filme em peça cultuada da cultura pop. Hoje, muitos historiadores consideram o longa uma das melhores misturas entre horror e humor já realizadas em Hollywood.

Abbott e Costello ajudaram a estabelecer uma tradição de duplas cômicas baseada no contraste entre o sujeito racional e o desastrado, fórmula que apareceria posteriormente em inúmeros filmes, séries e programas humorísticos. Além disso, a dupla antecipou elementos que seriam explorados pela televisão moderna: esquetes rápidos, bordões recorrentes e humor construído em diálogos acelerados e com duplo sentido.

A carreira da dupla também simboliza uma transição importante do entretenimento americano: do teatro popular e do rádio para a era dourada de Hollywood e, posteriormente, para a televisão. Poucos artistas conseguiram atravessar tantas fases da cultura de massa com impacto tão duradouro quanto Abbott e Costello.

 

Abbott e Costello e Outros Monstros

 O enorme sucesso de “Abbott e Costello encontram Frankenstein” levou a Universal Pictures a transformar o encontro entre Bud Abbott e Lou Costello com criaturas clássicas do horror em uma espécie de franquia. Abaixo estão os principais filmes da dupla relacionados ao universo dos monstros clássicos da Universal, com suas datas de estreia nos cinemas dos Estados Unidos:

 

“Abbott e Costello encontram Frankenstein” (1948) – Disponível no Darkflix+.

Entre todos eles, “Abbott and Costello Meet Frankenstein” continua sendo considerado o grande clássico da fase “monstros”. O longa reuniu, pela primeira vez, os principais ícones do horror da Universal no mesmo filme: Drácula, Monstro de Frankenstein e o Lobisomem. Além disso, marcou o retorno de Bela Lugosi ao papel de Drácula no cinema. Lon Chaney Jr. volta a fazer o lobisomem, monstro que interpretou a primeira vez em 1941, no filme “O Lobisomem”, ao lado de Claude Rains. Já o monstro de Frankenstein não teve a presença do original feito por Boris Karloff em 1931. O filme foi lançado no cinema com o título nacional “Às voltas com Fantasmas”.

 

“Abbott e Costello Encontram o Homem Invisível” (1951) Disponível no Darkflix+.

Recém-formados como detetives particulares, Lou Francis e Bud Alexander ajudam o boxeador Tommy Nelson, acusado injustamente de assassinato, a provar sua inocência usando um soro de invisibilidade criado pelo Dr. Gray. Entre lutas de boxe, confusões e perseguições, a dupla enfrenta criminosos ligados a um esquema de apostas enquanto tenta capturar o verdadeiro assassino.

 

“Abbott e Costello Encontram a Múmia” (1955)Disponível no Darkflix+.

Considerado um dos últimos filmes importantes da dupla, o longa faz paródia direta dos filmes de múmia da Universal iniciados nos anos 1930. A história acompanha os dois envolvidos em uma caça arqueológica no Egito, onde acabam cruzando o caminho de uma múmia assassina. O filme reutiliza diversos clichês dos filmes de aventura e horror da época, transformando sustos em situações absurdas. Lançado no cinema brasileiro como “Caçando Múmias no Egito”.

 

A influência do legado

 Abbott e Costello ajudaram a estabelecer uma tradição de duplas cômicas baseada no contraste entre o sujeito racional e o desastrado, fórmula que apareceria posteriormente em inúmeros filmes, séries e programas humorísticos. Além disso, a dupla antecipou elementos que seriam explorados pela televisão moderna: esquetes rápidos, bordões recorrentes e humor construído em diálogos acelerados e com duplo sentido.

A carreira da dupla também simboliza uma transição importante do entretenimento americano: do teatro popular e do rádio para a era dourada de Hollywood e, posteriormente, para a televisão. Poucos artistas conseguiram atravessar tantas fases da cultura de massa com impacto tão duradouro quanto Abbott e Costello.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

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