“O Escondido” (título original: The Hidden, 1987) é um daqueles filmes que passaram relativamente despercebidos em seu lançamento, mas que, com o tempo, conquistaram o status de cult entre os fãs de ficção científica, suspense e terror. Dirigido por Jack Sholder e estrelado por Kyle MacLachlan e Michael Nouri, o longa mistura investigação policial, ação e invasão alienígena de maneira bastante original.
A trama acompanha um policial de Los Angeles e um misterioso agente do FBI que investigam uma série de crimes violentos cometidos por cidadãos aparentemente comuns. Aos poucos, descobre-se que o responsável é um parasita extraterrestre capaz de abandonar um corpo e assumir outro, levando seus hospedeiros a uma espiral de violência, luxúria e destruição.
O que torna “O Escondido” interessante é a forma como ele combina dois gêneros muito populares nos anos 1980: o filme policial urbano, marcado por perseguições e tiroteios, e a ficção científica paranoica sobre invasões alienígenas. A abertura, por exemplo, parece saída de um thriller policial clássico, antes de revelar gradualmente sua natureza fantástica.
Paralelos com outras obras
O paralelo mais evidente é com o filme “Vampiros de Almas” (Invasion of the Body Snatchers). Em ambos, uma força alienígena assume corpos humanos, criando a sensação de que qualquer pessoa pode não ser quem aparenta ser. A diferença é que “O Escondido” substitui a paranoia coletiva por uma perseguição policial frenética. Enquanto Body Snatchers aposta no medo da perda da identidade, The Hidden enfatiza o caos provocado por um único invasor.
Outro filme que dialoga fortemente com ele é “O Enigma de Outro Mundo” (The Thing), de John Carpenter. Ambos exploram a ideia de uma entidade que pode se esconder em corpos humanos, tornando impossível saber em quem confiar. Porém, The Thing trabalha o horror claustrofóbico, enquanto “O Escondido” se desenvolve em uma grande metrópole, transformando Los Angeles em um campo de caça.
Há também semelhanças com “Eles Vivem” (They Live), outro clássico cult da época. Os dois filmes utilizam a ficção científica para sugerir que forças ocultas convivem entre nós sem serem percebidas pela maioria das pessoas. Muitos fãs inclusive os consideram representantes de uma mesma onda de ficção científica urbana dos anos 1980.
Um precursor de várias ideias modernas
Revendo hoje, é possível perceber como “O Escondido” antecipou conceitos que se tornariam comuns em produções posteriores. A ideia de um ser que muda constantemente de corpo pode ser vista em filmes como “Possuídos” (Fallen), estrelado por Denzel Washington. Nesse longa, uma entidade demoníaca também passa de pessoa para pessoa, obrigando o protagonista a caçar um inimigo invisível.
Avaliação crítica
Embora não tenha sido um grande sucesso de bilheteria, o filme foi bem recebido por parte da crítica e acabou ganhando uma reputação de “joia escondida” do cinema fantástico dos anos 1980. Seu ritmo acelerado, os efeitos práticos e a atuação peculiar de Kyle MacLachlan — que muitos enxergam como uma espécie de ensaio para seu futuro papel em Twin Peaks — contribuíram para sua longevidade.
Do ponto de vista jornalístico, “O Escondido” pode ser definido como uma combinação improvável entre “Vampiros de Almas”, um filme policial à moda de “Operação França” (The French Connection) e a paranoia sci-fi dos anos 1980. É um exemplo de como produções de orçamento moderado conseguiam apresentar ideias criativas e influenciar obras posteriores sem necessariamente se tornarem grandes sucessos comerciais.
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
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