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Crônica: “Tetsuo – O Homem de Ferro”

Publicado em 6 de Julho de 2026 por Carlos Castelo

“Tetsuo – O Homem de Ferro”, de Shinya Tsukamoto, é um filme em que sofremos assistindo. Rodado em 1989 com um punhado de ienes, uma câmera 16mm e uma obstinação quase religiosa, o filme dura pouco mais de uma hora, mas deixa a sensação de ter atravessado um pesadelo industrial completo, do início ao fim da civilização mecânica.

A premissa é simples até a crueldade: um homem comum, um assalariado anônimo, atropela por acidente um fetichista do metal (vivido pelo próprio Tsukamoto) que vinha se mutilando de forma ritualística para implantar sucata sob a pele. O morto, ou quase morto, não aceita o esquecimento. Sua vingança se manifesta como contágio: o corpo do assalariado começa a enferrujar por dentro, brotam parafusos onde deveriam brotar pelos, e o que era carne cede lugar, célula a célula, a uma anatomia de refugo industrial.

O que torna “Tetsuo” memorável não é a trama (que é rarefeita, quase um pretexto), mas a fúria com que Tsukamoto a filma. Fotografado em preto e branco granulado, editado em cortes epiléticos, sonorizado pela percussão industrial de Chu Ishikawa, o filme abandona qualquer pretensão de verossimilhança para operar como purga visual. É cinema de vanguarda pensado como ataque nervoso, próximo do expressionismo alemão e da estética crua do vídeo experimental que Tsukamoto praticava antes de chegar aos longas.

Por trás da mutilação delirante, há uma tese que o Japão do final dos anos 1980 conhecia bem: a angústia do trabalhador urbano diante de uma modernidade que o converte, lentamente, em peça de sua própria engrenagem. O “salaryman” não é violentado por uma força alienígena. Ele é corroído por aquilo que já o cercava havia décadas: metal, disciplina, produtividade, a cidade como máquina de moer corpos. “Tetsuo” antecipou, com anos de vantagem, temas que o cyberpunk cinematográfico e o body horror de David Cronenberg exploravam em paralelo, e chegou a ser citado ao lado de “Akira” como retrato definidor da ansiedade tecnológica japonesa daquela década.

Trinta e sete anos depois, o filme resiste não como curiosidade cult, mas como advertência ainda pungente: a fusão entre corpo e máquina, que hoje soa quase doméstica em nosso cotidiano, já era ali motivo de pavor e êxtase. “Tetsuo” não pergunta se seremos engolidos pelo metal. Apenas mostra, com prazer sádico, como isso já começou.

 

Título original: 鉄男 (Tetsuo)

Lançamento: 1 de julho de 1989

País de origem: Japão

Direção: Shinya Tsukamoto

Duração: 67 minutos

Roteiro: Shinya Tsukamoto

Trilha sonora: Chu Ishikawa

  

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Tetsuo – O Homem de Ferro” está disponível na Darkflix+.

 

 

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