• Além da Tela

Além da tela: Laurin

Publicado em 12 de Maio de 2026 por Marcelo Humbro

…onde não houver mais morte, nós nos encontraremos novamente…

 

Laurin (1989), dirigido por Robert Sigl, é um daqueles filmes raros que parecem existir à margem do próprio cinema de horror europeu dos anos 1980. Enquanto o período caminhava cada vez mais para o gore explícito, para o humor autoconsciente ou para a estética videoclíptica que dominava parte do horror comercial da época, Sigl optou pelo caminho oposto: construiu uma obra silenciosa, atmosférica e profundamente melancólica, mais interessada em estados psicológicos e sensações do que em sustos convencionais.

Ambientado numa aldeia costeira sombria do início do século XX, Laurin mergulha o espectador numa narrativa quase onírica, acompanhando a jovem protagonista em meio a desaparecimentos de crianças, repressões familiares e uma sensação constante de ameaça invisível. O que impressiona no filme não é exatamente sua trama — deliberadamente difusa e fragmentada —, mas a maneira como Robert Sigl transforma espaço, fotografia e silêncio em linguagem dramática.

Visualmente, o filme é extraordinário. A fotografia de tons azulados e acinzentados cria um universo frio, fantasmagórico, onde cada rua parece amaldiçoada e cada interior parece esconder um trauma antigo. Há ecos evidentes do expressionismo alemão, mas também de obras como “Inverno de sangue em Veneza” (Don’t Look Now, 1973) de Nicolas Roeg, do horror atmosférico italiano dos anos 1970 e até da sensibilidade poética de certos contos góticos europeus. Ainda assim, Laurin nunca soa como mera imitação: possui identidade visual própria, construída com uma sofisticação incomum para uma produção relativamente obscura.

Outro aspecto fascinante é a forma como Sigl trabalha a infância. A protagonista não é retratada com sentimentalismo, mas como alguém aprisionada num universo adulto decadente, repressivo e quase necrológico. Existe no filme uma permanente tensão entre inocência e corrupção, entre imaginação infantil e violência latente. Essa abordagem aproxima Laurin mais de um conto de fadas macabro do que de um horror tradicional.

A trilha sonora reforça esse caráter hipnótico. Em muitos momentos, o filme parece flutuar entre sonho e pesadelo, recusando explicações objetivas. Essa ambiguidade pode afastar espectadores acostumados a narrativas lineares, mas é justamente ela que transforma Laurin numa experiência singular. Robert Sigl parece menos interessado em solucionar mistérios do que em aprisionar o público dentro de uma atmosfera de paranoia e tristeza.

Embora tenha permanecido por muitos anos relativamente esquecido, Laurin ganhou status cult entre admiradores do horror europeu mais artístico e atmosférico. É um filme que exige contemplação e paciência, mas recompensa o espectador com imagens de enorme força visual e uma sensação de desconforto persistente. Em vez de apostar no choque imediato, Sigl cria um horror lento, elegíaco e quase fantasmagórico — um cinema de sombras, memórias e traumas enterrados.

Mais do que um simples filme de terror, Laurin é uma obra sobre decadência emocional, isolamento e perda da inocência. E talvez seja exatamente por isso que continue tão perturbador décadas depois de seu lançamento.

Marcelo Humbro é jornalista, pesquisador, roteirista e crítico de cinema, além de membro da VdFk – Associação Alemã de Críticos de Cinema. O filme “Laurin” está disponível na Darkflix+.

 

 

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