Existem alguns momentos quando entramos num cinema que é um momento único, especialmente quando se comenta o quão fantástico é um filme e você acha, por um momento, que nunca vai conseguir ver essa preciosidade. Foi assim com “Viagem Fantástica”, filme que assisti nos anos 70, após descobrir que ele voltaria aos cinemas de São Paulo, após cerca de cinco anos de sua estreia. Esse é um pequeno tesouro que você encontra na plataforma de streaming Darkflix+.
Lançado em 1966, “Viagem Fantástica” permanece como um dos exemplos mais criativos da ficção científica clássica, não apenas por sua premissa ousada, mas também pelos bastidores tão curiosos quanto a própria história. Dirigido por Richard Fleischer, o filme equilibra imaginação e rigor técnico, algo que se reflete diretamente em sua produção.
Para quem não conhece um pouco da história desse fantástico cineasta, Richard é filho de Max Fleischer e sobrinho de Dave, a dupla que fundou a Fleischer Studios, responsável pela criação dos desenhos animados da “Betty Boop”, o marinheiro “Popeye” e do “Super-Homem”, todos entre as décadas de 30 e 40. Richard também dirigiu um dos grandes clássicos da ficção-cientifica, a adaptação do romance de Jules Verne, “20.000 Léguas Submarinas” (1954).
Fleischer, que chegou a estudar medicina antes de seguir carreira no cinema, buscava dar verossimilhança científica à narrativa — ainda que lidasse com um conceito tão fantástico quanto a miniaturização de seres humanos. Esse cuidado fez com que, por décadas, trechos do filme fossem exibidos em faculdades de medicina, especialmente para ilustrar conceitos de anatomia, fisiologia e imunologia. Não por acaso, a jornada da equipe dentro do corpo humano segue quase em tempo real: o período em que os personagens permanecem miniaturizados corresponde praticamente à duração do próprio filme, reforçando a sensação de urgência da missão.
Ao mesmo tempo, a produção foi marcada por soluções criativas — e por vezes improvisadas — para dar vida aos efeitos especiais. Sequências que sugerem natação em meio a um fluido corporal, por exemplo, foram filmadas em estúdios secos, com atores suspensos por cabos que haviam sido tratados com ácido para evitar reflexos, o que os tornava perigosamente frágeis. Para completar a ilusão, as imagens foram registradas em velocidade acelerada e reproduzidas em ritmo normal. Já o comportamento dos anticorpos foi obtido por um truque simples e engenhoso: filmar objetos sendo afastados e depois inverter a imagem na edição. Em outro momento, um redemoinho dentro do corpo foi criado usando uma taça de champanhe gigante cheia de água — provavelmente reaproveitada de outro filme da época. Nem tudo, porém, saiu como planejado: um dos modelos em miniatura do submarino Proteus simplesmente desapareceu durante as filmagens, levado por um corvo após ser deixado próximo a uma janela aberta.
A busca por naturalidade também levou Fleischer a experimentar com a direção de atores — ainda que isso nem sempre funcionasse de imediato. Na cena em que a equipe remove anticorpos do corpo da personagem de Raquel Welch, o diretor inicialmente deu liberdade total ao elenco. O resultado foi estranho: os atores evitaram certas áreas do corpo da atriz (os seios de Raquel), criando um efeito que ele comparou ao de uma “dançarina de Las Vegas”. Na segunda tentativa, o exagero foi na direção oposta. A solução foi coreografar detalhadamente cada movimento, algo que acabou definindo o resultado final visto na tela.
Nos bastidores, a produção também teve suas histórias pessoais. Welch, então em início de carreira, revelou anos depois que se apaixonou por seu colega Stephen Boyd durante as filmagens, sem ser correspondida. Este foi seu primeiro grande papel em Hollywood, ainda antes de se tornar um fenômeno mundial com “Mil Séculos Antes de Cristo”, lançado no mesmo ano — sucesso que levou inclusive a mudanças no material promocional de “Viagem Fantástica” para destacar sua imagem já icônica.
A questão da orientação sexual de Stephen Boyd nunca foi discutida abertamente, já que assumir-se sexualmente é algo que começou a acontecer nesse século. Boyd foi casado duas vezes, sendo que na segunda foi com sua secretária Elizabeth Mills, até a morte do ator em 1977. Segundo o escritor Gore Vidal, um dos roteiristas do clássico “Ben-Hur” (1959), ele colocou sutilmente que o personagem de Boyd, Messala, teve um relacionamento com o personagem interpretado por Charlton Heston. Essa história foi revelada no lançamento da edição especial do DVD de 50 anos do filme, em 2011.
Outro aspecto marcante da produção está no uso do som. Diferente do padrão da época, o filme não apresenta trilha musical em seus créditos iniciais, optando apenas por pulsos eletrônicos e efeitos sonoros — alguns deles reaproveitados de “Amores Eletrônicos”. Essa escolha reforça o tom tecnológico e experimental da obra, alinhado ao espírito científico que permeia toda a narrativa.
Grande parte das cenas externas da instalação secreta da CMDF foi filmada na Los Angeles Memorial Sports Arena, um espaço que também seria reutilizado por Fleischer em “No Mundo de 2020” (1973). Como era comum na época, cenários e adereços circularam entre diferentes produções, contribuindo para a construção visual de um imaginário futurista compartilhado por diversos filmes dos anos 60.
Se por um lado o filme impressionava visualmente, por outro enfrentava críticas em relação à sua base científica — e foi justamente aí que entrou Isaac Asimov. Convidado a escrever a novelização, o autor encontrou um roteiro que considerava cheio de inconsistências. Com liberdade para reescrever diversos aspectos, ele produziu uma versão mais rigorosa do ponto de vista científico, publicada inclusive antes da estreia do filme devido a atrasos na produção. Anos mais tarde, ainda intrigado com o conceito, Asimov retornaria ao tema em “Viagem Fantástica II: Rumo ao Cérebro” (1987), expandindo as ideias de miniaturização em uma narrativa totalmente nova.
Mesmo com suas licenças criativas, o filme tentou justificar certos elementos com base científica, como o uso de código Morse para comunicação — uma solução plausível diante das limitações de transmissão em escala microscópica — e o uso de pequenas antenas posicionadas próximas ao corpo do paciente. Curiosamente, conceitos que pareciam pura ficção nos anos 60 hoje encontram ecos no desenvolvimento da nanomedicina, que já explora formas de levar tratamentos a regiões específicas do corpo humano.
O impacto cultural de “Viagem Fantástica” também foi significativo. A obra ajudou a popularizar a ideia do “espaço interior” como uma nova fronteira da ciência, influenciando produções posteriores como “Viagem Insólita” (1987). Lançado no mesmo ano que séries como “Jornada nas Estrelas” e “Batman”, o filme se destacou por seus efeitos visuais mais sofisticados e por uma abordagem mais séria dentro do gênero.
Décadas depois, “Viagem Fantástica” continua sendo lembrado não apenas como um clássico da ficção científica, mas como um exemplo de como criatividade, improviso e ambição podem transformar limitações técnicas em soluções inventivas — e, às vezes, até antecipar o futuro.
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
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