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Cinema em Perspectiva: Christopher Lee e Peter Cushing, os rostos imortais da Hammer

Publicado em 2 de Abril de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Se existe uma coisa que sempre defendi depois que entendi um pouco sobre a vida, é que tudo o que você vê enquanto está crescendo, é importante para o seu futuro. Aqui, agora, estou começando a escrever sobre dois grandes nomes do cinema, quando forcei a memória para lembrar quando vi Peter Cushing e Christopher Lee juntos, pela primeira vez. A resposta estava a poucos metros da minha mesa de trabalho, na prateleira de DVDs com o título “O Cão dos Baskerville”.

O filme, dirigido por Terence Fisher em 1959, é uma das melhores adaptações do clássico literário escrito na Inglaterra Vitoriana por Sir Arthur Conan Doyle. Vi na televisão e fiquei impressionado com a história. Acho que foi a primeira vez que vi algo com o grande detetive. No dia seguinte, achei na biblioteca da escola, As Aventuras de Sherlock Holmes, o primeiro livro com os primeiros contos da dupla Sherlock Holmes e John Watson. E não parei até ler tudo.

O curioso é que anos depois, vejo uma chamada de um filme de vampiro que iria passar na Globo e que, felizmente, despertou a atenção da minha mãe, Dona Zezé, fã de cinema. Ela disse que foi o primeiro filme de vampiro que ela viu na juventude. Ao contrário da chamada da Globo que dizia que o filme era “O Horror de Drácula”, ela lembrava que tinha visto “O Vampiro da Noite”. Na realidade, é o mesmo filme e que trazia a primeira parceria entre Christopher Lee e Peter Cushing.

Em 1958, a dupla chegaria ao cinema com novas versões do conde vampiro de Bram Stocker e o monstro de Mary Shelley: “O Vampiro da Noite”, lançado em junho e, “A Maldição de Frankenstein”, que chegou em setembro nos cinemas britânicos. Todos com direção de Terence Fisher e produzidos pela Hammer que, graças ao sucesso dessas duas produções, cruzaria o Atlântico para entreter os americanos e, dentro do possível, os brasileiros. Abrindo a porta para mais filmes de suspense e terror entre os anos 60 e 70.

A parceria entre Christopher Lee e Peter Cushing figura entre as mais emblemáticas da história do cinema britânico — especialmente no território do horror gótico que floresceu a partir dos anos 1950. Unidos por afinidade artística e uma sólida amizade pessoal, os dois ajudaram a redefinir a estética e o prestígio do gênero, sobretudo por meio de suas colaborações com a Hammer Film Productions.

Embora já experientes no cinema e na televisão, foi no fim da década de 1950 que suas trajetórias se entrelaçaram de maneira decisiva. Em 1957, trabalharam juntos em “A Maldição de Frankenstein”, marco inicial da nova fase da Hammer. No filme, Cushing deu vida a um Barão Frankenstein frio, obsessivo e intelectualizado, enquanto Lee interpretou a criatura, trazendo uma fisicalidade brutal e silenciosa ao personagem.

Christopher Lee e Peter Cushing juntos em “O Expresso do Horror” (1972) / Imagem: Divulgação

No ano seguinte, consolidaram essa parceria com “O Vampiro da Noite”, onde cristalizaram arquétipos que marcariam o cinema: Cushing como o obstinado Professor Van Helsing e Lee como um Drácula elegante, contido e profundamente ameaçador. A química entre ambos era evidente — enquanto Cushing trazia racionalidade e energia ao caçador de vampiros, Lee reinventava o conde com uma presença mais física e sensual, rompendo com tradições anteriores.

Em 1959, vieram a atuar juntos em “O Cão dos Baskerville”, adaptação da obra de Arthur Conan Doyle. Nesse projeto, Cushing compôs um Sherlock Holmes preciso e cerebral, enquanto Lee interpretou Sir Henry Baskerville. Ainda que não fossem antagonistas diretos, já se percebia a força de suas presenças: de um lado, a precisão quase cirúrgica de Cushing; de outro, a imponência física e a voz grave de Lee. Para mim, Cushing fez o melhor Sherlock Holmes do cinema.

A partir daí, a dupla tornou-se presença recorrente nas produções da Hammer, transitando entre os universos de Drácula e Frankenstein ao longo das décadas de 1960 e 1970. Esse contraste — razão científica versus força primitiva — tornou-se uma das marcas mais duradouras da parceria.

Fora das telas, a relação era igualmente sólida. Lee frequentemente descrevia Cushing como um dos homens mais gentis e profissionais que conheceu. Em momentos difíceis, como a morte da esposa de Cushing, a amizade entre os dois se mostrou ainda mais profunda. Compartilhavam interesses por literatura, história e uma visão clássica do ofício de ator.

Nem tudo, porém, era isento de críticas. Lee manifestava insatisfação com o tratamento dado a Drácula em algumas sequências, muitas vezes reduzido a um papel quase mudo e repetitivo. Cushing, mais diplomático, também enfrentava limitações criativas, frequentemente associado a personagens semelhantes. Ainda assim, ambos conseguiam elevar roteiros irregulares com talento e presença cênica.

Com o passar dos anos, seguiram caminhos distintos, mas igualmente marcantes. Cushing alcançou novos públicos com “Star Wars: Uma Nova Esperança”, enquanto Lee expandiu sua carreira internacional, trabalhando com cineastas como Tim Burton na nova versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, e Peter Jackson, fazendo Saruman na Trilogia de “O Senhor dos Anéis” e nos filmes “O Hobbitt”.

O legado, no entanto, permanece: juntos, ajudaram a transformar o terror em um gênero elegante, respeitável e artisticamente relevante. Mais do que colegas, foram cúmplices na construção de um imaginário que ainda hoje influencia o cinema fantástico.

Durante os anos 1960, a Hammer viveu seu auge produtivo. Lee e Cushing tornaram-se rostos constantes em sequências e variações do mesmo universo, como “Drácula – O Príncipe das Trevas” e “Frankenstein Criou a Mulher”.

Cushing aprofundou seu Frankenstein, tornando-o cada vez mais obsessivo, enquanto Lee começava a demonstrar desconforto com a repetição do personagem Drácula. Ainda assim, ambos encontravam maneiras de renovar suas performances — Cushing com sutilezas psicológicas, Lee com intensidade física e expressiva.

Na década de 1970, a Hammer enfrentou mudanças no gosto do público e maior concorrência. Tentando se modernizar, levou seus personagens para contextos contemporâneos em filmes como “Drácula no Mundo da Minissaia” e “Os Ritos Satânicos de Drácula”. Apesar das tentativas, o desgaste era visível. Lee tornou-se mais crítico em relação aos roteiros, enquanto Cushing mantinha a elegância e o profissionalismo, sustentando filmes irregulares com sua técnica.

Se você quiser conhecer um pouco dessa parceria, veja a relação dos principais filmes que Christopher Lee e Peter Cushing atuaram juntos e estão disponíveis da Darkflix: “A Maldição de Frankenstein”; “Drácula – O Vampiro da Noite”; “O Cão dos Baskerville”; “A Múmia”; “A Górgona”; “Dracula: Principe das Trevas”; “A Maldição da Caveira”; “Dracula no Mundo da minissaia”; “Os Ritos Satânicos de Dracula” e “O Expresso do Horror”.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

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