Existe algo muito desconfortável em acordar num mundo pós-apocalíptico e perceber que, além de tudo, você é um clone. Não um clone estiloso, com capa preta e frases filosóficas de efeito. Mas um sujeito chamado Pernat que mal entende onde está o banheiro mais próximo. É nesse cenário de concreto e burocratas que o filme polonês “O Golem” (1979), dirigido por Piotr Szulkin, nos convida a passear. Ou melhor, a vaguear, porque ninguém ali parece saber para onde está indo.
Pernat é apresentado como o “homem perfeito”. Isso, claro, segundo cientistas que nunca tentaram montar um guarda-roupa da Tok & Stok ou sobreviver a uma fila de repartição pública. O problema é que ser perfeito num mundo defeituoso é um pouco como ser um pato de borracha num deserto: interessante, mas inútil. Ele caminha por ruas cinzentas com a expressão constante de quem acabou de perceber que esqueceu a senha de tudo. Identidade, banco, talvez até da Darkflix.
Ao longo da história, Pernat encontra figuras como Rozyna e Miriam, personagens que parecem saídas de um sonho ou de uma reunião muito mal iluminada. As interações são carregadas de surrealismo kafkiano. Parece que todos tomaram café demais e decidiram discutir filosofia no meio de ruínas radioativas. Enquanto isso, autoridades e cientistas observam Pernat. A ideia que se tem é que acompanham um reality show distópico: “Será que ele descobre hoje que é manipulado?”
Lançado numa Polônia ainda sob a sombra soviética, o filme funciona como uma crítica velada ao totalitarismo. A burocracia opressiva retratada poderia transformar até o apocalipse num processo administrativo em três vias. O Golem moderno não é feito de barro, mas de genética e protocolos: e isso é ainda mais perturbador. Afinal, barro você molda com as mãos; já formulários exigem assinatura com firma reconhecida.
Visualmente, “O Golem” mistura paranoia e poesia como um liquidificador soviético na velocidade máxima. É fácil entender por que ganhou status cult, sendo comparado a obras como Stalker ou Brazil. Há algo hipnotizante naquele caos onírico. É você assistindo a um pesadelo.
No fim, Pernat permanece como um símbolo tragicômico: um ser criado para ser perfeito num mundo que claramente desistiu da perfeição. E essa é a grande sacada do filme: descobrir que, mesmo sendo um experimento científico avançado, você ainda precisa lidar com a eterna confusão de simplesmente existir.
Título original: Golem
Lançamento: 1979
País de origem: Polônia
Direção: Piotr Szulkin
Duração: 92 minutos
Roteiro: Piotr Szulkin
Trilha sonora: Zygmunt Konieczny
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “O Golem” está disponível na Darkflix+.
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