A década de 50 foi uma das décadas mais lembradas como a década da ficção-científica no cinema. Não era apenas um gênero para atrair o público jovem para as matinês ou sessões em drive-ins espalhados pelo interior americano. Foi nesse período que Hollywood descobriu que esse gênero era tão importante para as bilheterias como os grandes dramas, romances, comédias e mistérios apresentados na telona.
Grandes clássicos foram lançados durante essa década, e que foram fontes de inspiração para futuras carreiras de gente que abraçou o cinema como arte e trabalho. Foi o começo da Era do Átomo e da Guerra Fria entre os países ocidentais liderados pelos Estados Unidos contra as forças da União Soviética, temas que alimentavam o medo pelo fim do mundo e as assustadoras consequências do dia seguinte.
Ainda assim, Hollywood nos brindou com clássicos como o pacifista O Dia em que a Terra Parou (1951), um assustador contato do primeiro grau com O Monstro do Ártico (1951); invasores alienígenas de Vampiros D’Alma (1956), A Guerra dos Mundos (1953), e A Invasão dos Discos Voadores (1956); efeitos colaterais da radiação com O Incrível Homem que Encolheu (1957), Godzilla (1954) e as formigas gigantes de O Mundo em Perigo (1954); a conquista do espaço com Destino à Lua (1950) e O Fim do Mundos (1951).
No meio de outras dezenas de filmes de ficção, duas superproduções se destacaram como apostas altas de seus estúdios: 20 Mil Léguas Submarinas feito em 1954 pelos Estúdios Disney, e O Planeta Proibido, lançado dois anos depois pela poderosa Metro Goldwin Meyer.
Vamos deixar a adaptação do clássico da literatura mundial escrita no século 19 por Jules Verne para uma outra oportunidade para falar sobre um dos filmes que foram a base para inúmeras produções de cinema e televisão no mundo inteiro.
MGM NO PLANETA PROIBIDO
Ficção-científica nunca foi um gênero que a MGM queria explorar nas bilheterias. Louis B. Mayer, chefe do Estúdio do Leão, viu que seus concorrentes como a Warner, Paramount e Universal estavam produzindo filmes de ficção e tendo dividendos. Logo, era uma fatia de mercado que a MGM também deveria entrar. O detalhe importante é que não poderia ser apenas mais um filme, mas uma produção que levasse a assinatura da MGM. Ou seja, qualidade acima de tudo.
Coube ao roteirista Cyrill Hume o trabalho de achar uma história e colocá-la no papel. Cyrill trabalhava para a MGM há anos, onde fez a primeira adaptação do herói das selvas de Edgar Rice Borroughs, no filme Tarzã – O Filho das Selvas (1932), estrelado por Johnny Weissmuller.
Cyrill pegou um roteiro que circulava na MGM desde 1952, escrito pelos novatos Irving Block e Allen Adler, chamado Fatal Planet e que se passava em Mercúrio. Uma expedição terrestre chega ao planeta vermelho para resgatar um importante cientista e sua filha, presos em Mercúrio há 20 anos. Mas o resgate sofre um revés quando eles são atacados por uma criatura invisível.
Para a direção, Meyer escolheu um de seus protegidos, Fred M. Wilcox. No auge de seus 30 anos, Fred foi escolhido para dirigir uma série de filmes com Lassie, a collie que contracenou com Elizabeth Taylor e Roddy McDowall em A Força do Coração, em 1943. Criativo, Fred sabia como lidar com situações diferentes, que seriam o cenário básico de Planeta Proibido.
Basicamente, a história de Planeta Proibido adaptada por Cyrill tem as mesmas ideias, mas o roteirista decidiu criar um drama mais forte sobre o que aconteceu aos sobreviventes e sobre a força invisível que impedia que as pessoas escapassem do planeta. E aquela versão de que o filme é baseado na história de William Shakespeare, A Tempestade? Sim, parte da adaptação de Cyrill evoca um pouco da obra de Shakespeare, mas usando premissas relatadas em estudos psiquiátricos sobre comportamento.
O filme começa com uma bela cena mostrando a nave C-57D, um cruzador estelar dos Planetas Unidos, chegando ao distante planeta Altair IV. A missão do comandante John J Adams, primeiro trabalho no cinema do jovem Leslie Nielsen, é descobrir o que aconteceu com a Belerafonte, uma nave exploradora que desaparecera naquela região do espaço há vinte anos.
Mas um contato com o provável sobrevivente do Belerafonte revela-se uma inesperada surpresa. Respondendo ao contato da C-57D, o Dr. Edward Morbius (Walter Pigeon, de Como Era Verde o Meu Vale, 1941) diz para a nave seguir viagem e não pousar em Altair IV, alertando dos perigos que elas poderão enfrentar, sem dizer, claro, quais seriam.
Ignorando o alerta, o comandante Adams pousa e é recepcionado por uma maravilha construída pelo Dr. Morbius: Robbie, um robô dotado de força e inteligência superior, além de capaz de criar artefatos e sintetizar alimentos. Mas essa maravilha da robótica é um assunto a parte.
Ao chegar à residência do dr. Morbius, o comandante Adams, seu primeiro oficial Farman (Jack Kelly, de Terrível como o Inferno/1955) e o médico de bordo, Dr. Ostrow (Warren Stevens, da série Lanceiros de Bengala/1956), uma interessante surpresa: Altaira (Anne Francis, de Honey West/ 1966), a jovem e bela filha de Morbius.
ROBBY – O ROBÔ
Quem não teve a oportunidade de assistir ainda Planeta Proibido, é bom saber que a relação de Altaira e Adams é a chave para entender o mistério que se passa no planeta. Tudo começa numa das primeiras noites em que a nave está no planeta, quando o operador de rádio é morto por uma violenta criatura invisível.
As investigações fazem com que Morbius revele a verdade sobre o planeta. Há milênios, ele foi dominado por uma raça superdesenvolvida chamada Krells, responsável por incontáveis avanços científicos que Morbius nesses vinte anos em que está lá, raspou a superfície dos conhecimentos dessa raça.
Ao mesmo tempo, existe uma suspeita de que a criatura que está eliminando e atacando a C-57D é praticamente indestrutível. No ataque direto, a criatura quase rompe a barreira de força em volta da nave para uma carnificina. Ela é evitada, mas a custo de vidas, aumentando as suspeitas de Adams que Morbius está por trás dos crimes de hoje e, possivelmente, dos que dizimaram a tripulação da Belerafonte. A história de Cyrill vai de suspense, ação e mistério a cada passo que o público acompanha Adams em direção à assustadora verdade sobre os Krells e o verdadeiro responsável pelas mortes.
Tudo isso regado a um fantástico visual providenciado pelo trabalho dos cenógrafos Cedric Gibbons, que fez para a MGM os majestosos cenários de O Barco das Ilusões e Um Americano em Paris, duas produções campeãs de bilheteria de 1951. Ele foi o responsável por construir um dos maiores cenários dentro da MGM, para representar Altair IV. Ele também construiu em escala real, os acessos de embarque da C-57D, dando um maior realismo em todas as cenas envolvendo a nave.
Os efeitos visuais foram criados pela equipe de A. Arnold Gillespie, que no passado trabalhou, entre outros momentos do cinema, nos filmes O Mágico de Oz (1939) e no épico Quo Vadis (1951). Mas Gillespie acabou pedindo ajuda Joshua Meador para criar o monstro e outros efeitos importantes, como os raios das armas da tripulação da nave. Meador trabalhava na Disney, e fez várias animações especiais para esses efeitos, um deles em particular, o curto-circuito que Robby sofre num momento importante do filme.
Aliás, Robby é um capítulo à parte, como disse antes. Ele foi criado por Robert Kinoshita, num custo estimado de 125 mil dólares, mas operado internamento pelos dublês Frankie Darro e Frankie Carpenter. Os dois trabalharam novamente com Robby após Planeta Proibido, no filme O Menino Invisível (1957). O sucesso do personagem robótico foi tanto que ele apareceu em diversos seriados de TV, como Perdidos no Espaço (1965), no episódio Guerra dos Robôs, além de uma participação especial no filme Gremlins (1984), produzido por Steven Spielberg que, aliás, aparece em cena com Robby.
Em tempo: Robby aparece no icônico poster do filme carregando uma mulher, supostamente Altaira, personagem de Anne Francis. Esta cena, porém, nunca aconteceu, mas foi usada para seguir uma certa linha já usada no cinema de ficção-científica, de máquinas intimidadoras e robôs assassinos. Tudo isso, claro, longe do que Robby faz no filme.
A nave C-57D também apareceu em várias cenas de seriados como Além da Imaginação, e o conceito das gigantescas instalações dentro do planeta, também foram usadas para o conceito do Projeto Tique-Taque, da série O Túnel do Tempo (1966).
FONTE DE INSPIRAÇÃO
Existem muitas curiosidades sobre Planeta Proibido, mas o mais importante dizer é que esse foi um filme que superou as expectativas da MGM, mesmo não sendo um campeão de bilheteria. Seu orçamento foi de quase dois milhões de dólares faturando quase 3 milhões durante seu período nos cinemas americanos, e pouco mais desse valor no circuito internacional. Um Americano em Paris (1951), um dos grandes sucessos da MGM, faturou cerca de 7 milhões de dólares com um orçamento de 2,7 milhões.
Planeta Proibido fez história dentro do cinema. Foi indicado ao Oscar de Efeitos Visuais, e ganhou uma menção do Congresso Americano, onde está no arquivo de preservação cinematográfica. Sua trilha sonora original composta pela dupla Louis e Bebe Barron, foi a primeira na história do cinema a usar música eletrônica em todo o filme. Os “instrumentos” foram criados com circuitos eletrônicos feitos pelos Barron, que não usaram o já conhecido Theremin, muito popular para trilhas de filmes de ficção-científica.
E para os fãs de Jornada nas Estrelas tem um significado ainda maior por ter sido a fonte de inspiração de Gene Roddenberry para a criação da série, segundo seu livro de memórias. Além do conceito de nave estelar que viagem numa velocidade acima da conhecida Velocidade da Luz, existe o conceito que no século 23, época onde Planeta Proibido e Jornada nas Estrelas se passam, existe uma federação de planetas destinada a exploração do espaço.
Para quem pensava que Planeta Proibido era simplesmente uma ficção-científica com data marcada, pode rever seus conceitos. O filme é um drama denso, que aborda questões de família, confiança, dominação e amor. Como já disse no texto, a relação entre altaira e Adams é o centro da história. É a partir do entendimento dessa relação que o filme ganha outros contrastes, muito além do que uma simples comparação com o texto bardo britânico.
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
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