No filme “Litan: La cité des spectres verts”, de Jean-Pierre Mocky, chegamos a uma pequena cidade montanhosa durante o carnaval. Isso, em teoria, deveria ser tranquilizador. Carnaval costuma significar música, gente fantasiada e algum arrependimento na quarta-feira.
Em Litan, porém, o carnaval parece organizado por um comitê formado por Kafka, Edgar Allan Poe e roteiristas com problemas existenciais.
O casal Nora e Jock chega ao vilarejo como turistas inocentes. Nora tem um pesadelo sobre a morte do marido. Ao acordar, descobre que o pesadelo resolveu continuar acordado. A partir daí, o filme entra numa lógica própria, uma espécie de sonho febril.
A cidade inteira parece conspirar contra a sanidade. Pessoas mascaradas aparecem em becos. A polícia age de modo confuso. E há criaturas azuis luminosas vivendo na água: espectros que dissolvem pessoas.
O mais curioso é que ninguém em Litan parece achar isso estranho. Em seu carnaval, dissoluções humanas são tratadas com a mesma naturalidade com que um carioca comenta o trânsito da avenida Brasil.
Mocky filma tudo com um ar de sonho: ruas tortas, cavernas úmidas, máscaras grotescas e perseguições que não tem início, nem fim. O filme nunca explica completamente o que está acontecendo. E essa é justamente a graça.
Assistir a Litan é tentar entender um pesadelo no momento em que ele ocorre. Você nunca chega exatamente lá. Por causa disso, o filme acabou banido. Teve distribuição limitada em vários países e foi retirado de circulação em algumas regiões por uma combinação de fatores.
Primeiro, havia o tom político e satírico de Mocky, que ironizava autoridades, polícia e instituições religiosas. Em certos mercados televisivos europeus dos anos 1980, isso gerou desconforto com programadores.
Segundo: o filme apresentava violência surreal e perturbadora, especialmente as cenas em que as criaturas azuis dissolvem pessoas na água. Para a época, o efeito era considerado grotesco e inadequado para exibição ampla.
Terceiro: havia a atmosfera caótica e anti-narrativa. Distribuidores não sabiam como comercializar o longa. Não era exatamente terror, nem fantasia, nem sátira política. Era tudo isso ao mesmo tempo, o que para o mercado cinematográfico costuma ser um pecado mortal.
O filme então acabou marginalizado e circulou durante décadas quase como uma lenda cult, conhecido apenas por colecionadores e fãs de horror europeu.
O que, pensando bem, combina com Litan. É que algumas cidades querem turistas. Mas outras preferem testemunhas.
Título: Litan: La Cité des spectres verts.
Lançamento: 1982
País de origem: França
Direção: Jean-Pierre Mocky
Duração: 88 minutos
Roteiro: Jean-Pierre Mocky, Jean-Claude Romer, Patrick Granier, Scott Baker, Suzy Baker
Trilha sonora: Nino Ferrer
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Litan, A Cidade dos Espectros Verdes” está disponível na Darkflix+.
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