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Heavy Metal – O Universo em Fantasia: quando a animação rompeu a barreira da infância

Publicado em 24 de Fevereiro de 2026 por Wanda Pankevicius Barros

 

Texto de Paulo Gustavo Pereira – Jornalista e apresentador.

 

Nos anos 1970, quando a Rio Gráfica Editora lançou a revista Kripta, reunindo contos de terror, suspense e ficção científica, um nome saltou aos meus olhos com força incomum: Richard Corben. Não era apenas o conteúdo — perturbador, imaginativo —, mas a fisicalidade do traço, os corpos densos, sensuais, quase uma escultura clássica. Entre essas histórias, Tempo Passado, Tempo Presente, publicada originalmente na Eerie em 1965 e chegada ao Brasil em 1978, parecia condensar um paradoxo inteiro em poucas páginas: uma narrativa de viagem no tempo que unia engenho conceitual e um desfecho inquietante, daqueles que permanecem na memória muito depois da leitura.

No final da década, um novo encontro decisivo aconteceu quase por acaso. Em uma pequena livraria no centro de São Paulo — na esquina da Avenida São Luís com a Consolação —, uma das poucas que assinavam o The New York Times, deparei-me com exemplares da revista Heavy Metal. A edição de novembro de 1978, com uma capa de Marcus Boas retratando Helena de Troia, foi uma revelação. Ao folhear aquelas páginas, encontrei novamente Corben: uma adaptação de Simbad, inspirada em As Mil e Uma Noites, e, logo ao lado, Neverwhere, fantasia de ficção científica sobre um adolescente lançado acidentalmente em outro universo. O impacto foi imediato — e definitivo. Aquele desenho estilizado, sensual e brutal justificou cada centavo investido naquela pequena obra-prima do gênero.

Naquele momento, talvez ninguém imaginasse que a ficção científica e a fantasia estavam prestes a dominar o cinema comercial. O sucesso de Guerra nas Estrelas (1977), seguido por Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Superman – O Filme e, pouco depois, Alien e Jornada nas Estrelas – O Filme, abriu espaço para projetos mais ousados. Foi nesse contexto que o produtor e diretor Ivan Reitman, recém-saído do sucesso de Clube dos Cafajestes, decidiu adaptar para o cinema várias histórias publicadas pela Les Humanoïdes Associés, editora responsável pela Metal Hurlant e por sua versão americana, Heavy Metal.

Assim nasceu, em 1981, Heavy Metal – O Universo em Fantasia: uma obra fragmentada, mas coesa em espírito, reunindo artistas como Richard Corben, Bernie Wrightson, Angus McKie, além de personagens e universos inspirados em Moebius, como Harry Canyon e Taarna. O filme não apenas traduzia para a animação o imaginário da revista — erótico, violento, filosófico —, como afirmava algo ainda raro na época: a animação podia, sim, ser um território legítimo para narrativas adultas.

 

Corpo animado, técnica e liberdade

O segmento de Taarna, em especial, tornou-se emblemático pela ousadia técnica, ao resgatar a rotoscopia, utilizada pelos Irmãos Max e Dave Fleischer para as primeiras animações do Super-Homem, nos anos 40, para criar o visual da história. A rotoscopia consiste em filmar elementos humanos e depois, da pós-produção, “decorar visualmente” os personagens que compõe a cena. Em Taarna, com uma atriz filmada vestindo o traje, caminhando, lutando e atacando inimigos, conferiu peso e realismo incomuns à animação. Até mesmo os voos sobre paisagens devastadas exigiram soluções artesanais, com modelos tridimensionais filmados e posteriormente animados. O resultado foi uma fisicalidade que ainda hoje impressiona, reforçada pelo olhar ecológico e industrial de Moebius, visível em cenários tomados por tubulações, ruínas tecnológicas e desertos tóxicos.

A nudez, tratada de forma direta e sem moralismo, também se impôs como gesto estético e político. Em Den, ambientado em Neverwhere, pequenas concessões foram feitas à censura norte-americana, mas não sem ironia: a nudez nunca desaparece completamente, apenas se esconde — ou se afirma — nos intervalos do enquadramento.

 

Som como identidade: orquestra e distorção

É na música, porém, que Heavy Metal atinge uma de suas sínteses mais radicais. A trilha original composta por Elmer Bernstein funciona como eixo mitológico do filme. Sua escrita orquestral — épica, quase operística — dá unidade emocional aos segmentos e eleva o tom trágico, especialmente no arco de Taarna. Bernstein atua como força estruturante, conectando histórias, épocas e mundos.

Em choque deliberado com essa base clássica, surgem as canções de rock pesado. Black Sabbath, Blue Öyster Cult, Sammy Hagar, Cheap Trick, Devo, Don Felder e Nazareth não funcionam como trilha incidental, mas como linguagem narrativa. O rock dita ritmo, atmosfera e atitude, reforçando a sexualidade, a violência e o espírito anárquico da animação. Essa seleção dialoga diretamente com o público da revista, fundindo quadrinhos, cinema e cultura rock em um mesmo campo simbólico. Um dos melhores momentos que exemplifica esse conceito, é a música Vetern of Psick War, do Blue Oyster Cult, usada para abrir o primeiro segmento após a introdução. A impressão que se tem é que a banda escreveu a música pensando no desenho Harry Canyon, inspirado em Moebius.

 

VHS, DVD e a trilha fragmentada

Fora das salas de cinema, contudo, a música de Heavy Metal enfrentou um percurso acidentado. Lançada inicialmente em LP, a trilha sonora privilegiava as bandas, deixando a partitura de Bernstein em segundo plano. Com a chegada do VHS, os contratos musicais — pensados apenas para exibição cinematográfica — revelaram-se um entrave: direitos pulverizados, custos elevados e, em alguns mercados, versões alteradas do filme.

O DVD, a partir dos anos 1990, trouxe melhorias técnicas e consolidou o status cult da obra, mas não resolveu completamente o problema. Nunca houve uma edição definitiva que reunisse, de forma plena, o rock e o score orquestral. Assim, o público aprendeu a conhecer Heavy Metal de maneira fragmentada: o rock nos álbuns, a música de Bernstein restrita à experiência audiovisual do filme.

 

Um manifesto audiovisual e Dublagem Inédita

Quando você for assistir Heavy Metal – O Universo em Fantasia pela Darkflix+, é importante saber que o filme nunca foi exibido na TV aberta no Brasil. Por isso, quando a Sony lançou a edição especial em DVD no final dos anos 90, ela não continha a dublagem feita pela Herbert Richers, descoberta quando o filme foi programado para o canal TCM.

Na realidade, a Columbia havia feito a dublagem quando o filme entrou no pacote de vendas para a TV Aberta. Comprada pela Rede Globo, que deixou o filme engavetado por anos, até ser exibida no começo dos anos 90 no canal pago Multishow. É essa dublagem que você pode apreciar na Darkflix, sem perder a excelente trilha de rock pesado e o lirismo de Berstein.

Mais de quarenta anos depois, Heavy Metal – O Universo em Fantasia permanece como um retrato fiel de uma época em que fantasia, erotismo, experimentação visual e rock pesado coexistiam sem pedir licença. Um filme que não apenas expandiu os limites da animação, mas também revelou como som, imagem e memória podem se fundir em algo maior do que a soma de suas partes. Talvez por isso mesmo continue indomável — e essencial.

 

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

  

 

 

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