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Cinema em Perspectiva: O Incrível Richard Matheson

Publicado em 10 de Fevereiro de 2026 por Wanda Pankevicius Barros

 

Texto de Paulo Gustavo Pereira – Jornalista e apresentador.

 

Não tinha a mínima ideia de quem era Richard Matheson. Há tinha assistido diversos filmes dele, sem saber que tinha sido o roteirista de “O Incrível Homem que Encolheu” (1957), vários filmes produzidos pelo Roger Corman nos anos 60 como “O Corvo”, “Robur – O Conquistador”, “O Poço e o Pêndulo”. Também não tinha mínima ideia de ele também havia escrito vários episódios de algumas séries que assisti quando era criança como “Paladino do Oeste” (1960), “Cheyenne” (1960), “Impacto” (1961), “Suspense”, com Alfred Hitchcock (1962) e claro, “Além da Imaginação” (1958) e “Jornada nas Estrelas” (1966).

Se em “Jornada nas Estrelas”, Richard escreveu o episódio “Inimigo Interior”, da primeira temporada da Série Clássica, Rod Serling trabalhou com o roteirista em 16 brilhantes episódios, como “Os Invasores” (Segunda Temporada), estrelada por Agnes Morehead, de “A Feitticeira”, e o assustador “Pesadelo a 20.000 pés” (quinta temporada), estrelada por William Shatner, que seria conhecido mundialmente como Capitão James T. Kirk, de “Jornada nas Estrelas”.

Tudo mudou em 1981, quando a Editora Francisco Alves lançou na coleção Mestres do Horror e da Fantasia, “Eu Sou a Lenda”. Richard Matheson escreveu essa história em 1954, que ganhou três adaptações cinematográficas: “Mortos de Matam” (1964), estrelado por Vincent Price; Charlton Heston liderou o estranho elenco de “A Última Esperança da Terra” (1971); e finalmente Will Smith e Alice Braga dividiram a tela para a versão do século 21, lançada em 2007).

Apenas o filme de Vincent Price conseguiu chegar próximo à essência que Richard Matheson queria mostrar com a sua obra: a luta para sobreviver à própria solidão. Com esses temas mais intimistas, comecei a reparar em todos os outros filmes que acabei pesquisando para conhecer melhor esse fantástico autor. Sua ligação com temas espirituais e sobrenaturais são tão fascinantes como a ficção-científica que ele desenvolveu ao longo de sua carreira.

Poucos escritores exerceram uma influência tão profunda e duradoura sobre o cinema e a televisão quanto Richard Matheson, nascido em Nova Jersey, em 1926, e falecido na cidade californiana de Calabasas, em 2013. Autor de romances, contos e roteiros que transitaram com naturalidade entre o horror, a ficção científica e o sobrenatural, Matheson foi responsável por redefinir o fantástico no século XX, ao deslocá-lo dos castelos góticos e dos planetas distantes para o cotidiano, a mente humana e os dilemas espirituais do indivíduo moderno.

Sua obra, amplamente adaptada para o cinema e a televisão, consolidou uma abordagem intimista do gênero: o medo não nasce de monstros externos, mas da fragilidade emocional, da solidão, da perda de identidade e da inquietação diante da morte.

Mas foi revendo um de seus roteiros mais criativos e ousados, que percebi como a fragilidade humana é testada frente ao desconhecido. Eu já tinha assistido o filme “Encurralado” (1971) no cinema, onde Dennis Weaver (MacClaud) enfrentava um caminhoneiro misterioso numa rodovia do interior americano. A produção foi feita para a televisão, trazendo o jovem diretor Steven Spielberg para o centro dos holofotes. Especialmente quando a Universal, produtora do telefilme, decidiu que a obra merecia ser vista no cinema em outros países.

Um filme que transforma uma perseguição banal em uma alegoria sobre medo, impotência e forças invisíveis — marca registrada do autor. Foi assistindo novamente um dos filmes mais apavorantes da minha adolescência, “A Casa da Noite Eterna” (1973), que decidi comentar um pouco nesse artigo, a obra de Richard Matheson.

 

O fantástico como crise existencial

 

Publicado em 1956, O Incrível Homem que Encolheu (The Shrinking Man) permanece como uma das mais emblemáticas traduções da visão de Matheson. A premissa — um homem que começa a diminuir de tamanho após uma exposição radioativa — serve como ponto de partida para uma reflexão sobre masculinidade, poder, invisibilidade social e insignificância diante do universo.

A adaptação cinematográfica de 1957, dirigida por Jack Arnold e roteirizada pelo próprio Matheson, é hoje considerada um clássico do cinema de ficção-científica justamente por fugir do espetáculo fácil. Numa época em que o gênero era feito para preencher as sessões destinadas ao público jovem, o filme teve o efeito de fazer o público pensar sobre o que estava vendo. O desfecho, de tom existencialista e metafísico, sintetiza uma ideia recorrente do autor: a verdadeira transformação não é física, mas espiritual.

Essa abordagem também está presente em Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 1954), romance que influenciou diretamente o cinema pós-apocalíptico moderno. Mais do que uma história de vampiros, o livro examina a solidão absoluta e questiona quem define a normalidade em um mundo em colapso. Suas adaptações —  “Mortos que Matam” (1964), “A Última Esperança da Terra” (1971) e “Eu Sou a Lenda” (2007) — variam em tom, mas todas preservam o núcleo conceitual criado por Matheson.

 

O espiritualismo como eixo narrativo

 

A partir dos anos 1970, o interesse de Richard Matheson pelo espiritualismo, pela parapsicologia e pela sobrevivência da consciência após a morte torna-se cada vez mais explícito. Diferente de muitos autores do gênero, Matheson não tratava o sobrenatural apenas como metáfora ou artifício dramático: ele acreditava, de fato, na existência de planos além da matéria.

Esse viés se manifesta de forma contundente em A Casa da Noite Eterna (Hell House, 1971). Embora frequentemente classificado como um dos romances mais perturbadores sobre casas mal-assombradas, o livro é, essencialmente, um debate entre ciência, fé e mediunidade. A adaptação cinematográfica de 1973 (The Legend of Hell House) mantém essa tensão ideológica, apresentando o mal não como força abstrata, mas como corrupção espiritual ligada ao ego humano.

No filme, Roddy McDowall (“Planeta dos Macacos”), é um médium que sobreviveu à primeira tentativa de expulsar os espíritos malignos que mantém as pessoas fora da Mansão Belasco. Ele é convocado novamente para uma nova tentativa de ‘limpar’ o lugar, e, mesmo relutante, acaba participando de um dos momentos cruciais do filme. Um momento que mostra que entre a ciência e a religião, a busca pela verdade é a melhor estratégia.

Esse mesmo interesse pelo sobrenatural psicológico aparece com força em Ecos do Além, romance publicado em 1958 e adaptado para o cinema em 1999, em um filme dirigido por David Koepp e estrelado por Kevin Bacon. Embora muitas vezes ofuscado por outros títulos do período, o filme é uma das traduções mais fiéis do universo de Matheson.

A história acompanha um homem comum que, após uma sessão de hipnose, passa a experimentar visões, vozes e manifestações do além. O sobrenatural surge não como espetáculo, mas como perturbação da percepção, corroendo a rotina doméstica e a estabilidade mental do protagonista. Assim como em outras obras do autor, o horror não está nos fantasmas em si, mas na incapacidade de ignorá-los.

Tanto o livro como o filme adaptado, reforçam uma ideia central de Matheson: o mundo espiritual não está separado da vida cotidiana — ele a atravessa, insiste e cobra reconhecimento.

 

Amor, tempo e vida após a morte

 

O lado mais sensível e espiritual de Matheson ganha destaque em Em Algum Lugar do Passado (Bid Time Return), levado ao cinema em 1980. A história de um homem que transcende o tempo movido pelo amor se afasta das explicações científicas convencionais e se aproxima de uma concepção quase mística da realidade. Inicialmente mal-recebido, o filme tornou-se um clássico cult, reverenciado por sua entrega emocional e sua crença na força metafísica do afeto.

O curioso é que esse foi o primeiro grande sucesso de Christopher Reeve, após ter voado pelas salas dos cinemas como a mais recente versão do Homem de Aço, em “Super-Homem – O Filme”, de 1978. Ao lado dele, nada menos do que a primeira bondgirl da era Roger Moore, no filme com “007 – Viva e Deixe Morrer” (1973), Jane Seymour. A química entre os dois foi um dos pontos que fizeram esse filme se transformar num cult movie, aliada a fantástica trilha sonora de John Barry, usada em vários comerciais no Brasil.

O que aconteceu com Em Algum Lugar no Passado fez com que a obra de Richard ganhasse uma pesquisa mais profunda entre os produtores e roteiristas, para não construir um filme cujo resultado não atraísse o público em geral. Por isso a demora de produzir Amor Além da Vida, que Matheson escreveu e lançou em 1978. No romance, Matheson descreve o além como um espaço moldado pela mente e pelas emoções, onde céu e inferno são estados de consciência.

A New Line, uma pequena grande produtora independente, entregou ao roteirista Ron Bass, ganhador do Oscar por “Rain Man” (1988) e a comédia romântica “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (1997), a função de transformar os conceitos do livro em um filme visualmente tão forte como no texto. Visualmente, o filme acabou ganhando um Oscar de Efeitos Visuais.

A história mostra Chris Nielsen, feito com brilhantismo por Robin Williams, que morreu num acidente e ele acredita que foi para o Céu. Com um visual de tirar o fôlego, caminha pelo lugar até descobrir que sua esposa Annie, feita por Annabella Sciorra, está em algum lugar mais sombrio, por ter tirado sua própria vida. A jornada de Chris não será apenas enfrentar esse estranho destino, mas tentar quebrar as amarras que separam ele de sua eterna paixão.

Pode ser um filme mais obscuro, com questões morais delicadas, conflitos que Matheson sempre usou em seu trabalho. A resolução, assim como em quase toda a obra com tom espiritual construída pelo autor, é muito além de uma solução de usar o viveram felizes para sempre. “Amor Além da Vida” é uma versão bem popular das ideias centrais de Richard Matheson: a morte não é um fim, mas uma transição.

 

Um legado entre o medo e a transcendência

 

Teria muito mais a acrescentar sobre esse talentoso escritor. Richard Matheson conseguiu construiu uma obra que dialoga simultaneamente com o terror e com a esperança. Seus personagens enfrentam o colapso do corpo, da razão e da realidade, mas também descobrem que o amor, a consciência e a empatia podem sobreviver ao tempo, ao espaço e à morte.

Mais do que um autor de gênero, Matheson foi um intérprete das angústias modernas, alguém que usou o fantástico para investigar aquilo que a ciência ainda não explica e que a razão teme encarar. Seu legado permanece vivo no cinema, na televisão e em toda narrativa que entende que o verdadeiro mistério não está no monstro — mas no ser humano diante do desconhecido.

E se você quiser conferir, navegue pela Darkflix+ para conhecer obras inestimáveis como “A Casa da Noite Eterna”, “Mortos que Matam” e as séries “Além da Imaginação” e “Kolchak e os Demônios da Noite”.

 

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

 

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