Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
Num mundo infestado por mortos que andam, o filme “Cargo” não corre, ele caminha. E isso faz toda a diferença.
Enquanto a maioria dos filmes de zumbi aposta em hordas devoradoras, tiros na cabeça e gritos histéricos, essa produção australiana de 2017 pega uma estrada vicinal: silenciosa, poeirenta e emocional. É um apocalipse que acontece em câmera lenta, com a urgência de quem sabe que vai morrer: mas ainda tem algo precioso a proteger.
Martin Freeman, conhecido por interpretar personagens gentis, aqui interpreta Andy, um homem comum tentando realizar o que todo pai deveria fazer: garantir um futuro para a filha. O problema é que o tempo dele está se esgotando. Literalmente. Após ser mordido, ele tem 48 horas antes de se transformar num dos “outros”. E, nessas duas últimas voltas do relógio, começa sua jornada pelo deserto australiano com a filha bebê nas costas, como se carregasse a última faísca de esperança em um mundo à beira do colapso.
“Cargo” se destaca justamente por esse paradoxo: é um filme de zumbis onde o maior monstro é o egoísmo. O personagem Vic, por exemplo, usa pessoas como isca, revelando que, quando a sociedade desmorona, quem sobrou mostra a cara. E, muitas vezes, ela não é nada bonita.
Mas a história também encontra espaço para a delicadeza. Em meio à poeira, surge Thoomi, uma jovem aborígene que tenta salvar o pai, preso entre o humano e o monstruoso. A conexão entre ela e Andy é o verdadeiro coração do filme. Uma aliança improvável em um terreno onde a empatia parece extinta. E aqui reside uma das maiores virtudes da obra: a maneira como ela incorpora, com respeito, a sabedoria ancestral dos povos indígenas australianos. Não como figurantes exóticos, mas como guardiões de outro modo de ver e sobreviver ao mundo.
No fim, “Cargo” aborda menos a morte e mais o que deixamos para trás. Discorre sobre carregar nos ombros o futuro, mesmo quando o presente já está perdido. É uma elegia zumbi, uma carta de despedida empoeirada, aonde o terror não vem dos dentes afiados, mas da certeza do fim. E da coragem de caminhar até ele, com a filha nos braços.
- Título original: Cargo
- Lançamento: 6 de outubro de 2017
- País de origem: Austrália
- Direção: Ben Howling e Yolanda Ramke
- Duração: 105 minutos
- Roteiro: Yolanda Ramke
- Trilha sonora: Antony Partos
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Cargo” está disponível na Darkflix+.
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