Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
Vi “Entes Queridos” numa daquelas noites em que o terror não pede pipoca: pede silêncio. A sinopse prometia um filme de adolescente em perigo. Mas o que Sean Byrne entrega é mais incômodo: um baile de formatura montado dentro de um porão, como se o ritual social mais patético da adolescência fosse transplantado para um cativeiro. É aí que o filme começa a nos cutucar.
Brent, o garoto de olhar sempre meio distante, carrega um luto. O pai morreu, a culpa sobrou, e o mundo segue exigindo que ele sorria para fotos e escolha uma gravata para o baile. Lola, por sua vez, é a resposta errada para uma pergunta que ninguém deveria fazer: “E se a rejeição ganhasse garras?”. Quando ele recusa seu convite, não é apenas um fora. É uma sentença. E Lola, com seu vestido de debutante e seu sorriso de boneca quebrada, decide que, se não pode ser amada, ao menos será obedecida.

Xavier Samuel e Robin McLeavy em “Entes Queridos” (2009), do diretor Sean Byrne
O horror de “Entes Queridos” não está só nos martelos, nas agulhas e no sangue que pinga com insistência. Está na coreografia social que o filme distorce. O baile de formatura vira um ritual de humilhação. Lola quer dançar, quer fotos, quer romance. Mas tudo isso só existe porque um garoto amarrado é obrigado a participar. É como se o cinema dissesse: toda fantasia romântica imposta à força é uma forma de tortura.
Robin McLeavy faz de Lola algo mais assustador do que uma vilã: ela se torna uma criança ferida brincando de ser adulta com instrumentos de carnificina. O pai cúmplice, silencioso e obediente, completa o quadro: uma família em que o afeto foi substituído por um pacto de violência. Não há monstros sobrenaturais aqui, só gente que aprendeu a amar do jeito errado.
O detalhe mais cruel do filme talvez seja a trilha sonora pop, alegre, quase cafona, que toca enquanto o inferno acontece. É como ouvir uma rádio FM tocando no meio de um sequestro: a vida cotidiana insiste em continuar, mesmo quando alguém está sendo destruído. Isso dá ao filme um humor negro, uma ironia que lateja.
No fundo, “Entes Queridos” é uma história sobre rejeição. Byrne apenas leva essa sensação às últimas consequências, mostrando que, quando o amor vira exigência, ele já se transformou em ódio. E o baile, o grande mito da juventude, revela-se o que sempre foi: uma fantasia frágil, pronta para virar pesadelo ao primeiro não.
Título original: The Loved Ones
Lançamento: 2009
País de origem: Austrália
Direção: Sean Byrne
Duração: 84 minutos
Roteiro: Sean Byrne
Trilha sonora: Michael Yezerski
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Entes Queridos” está disponível na Darkflix+.
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