Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
Uma noite de tempestade, uma casa isolada à beira-mar e três adultos tentando resolver o que nem uma comissão da verdade daria conta. É assim que “A Morte e a Donzela”, filme de Roman Polanski, nos convida a sentar no sofá: não da sala de cinema, mas da sala onde se decide se alguém é culpado ou inocente com base em memórias, traumas e um revólver carregado.
Não se engane pelo nome poético, nem pela música de Schubert que dá título ao filme. A donzela aqui não é frágil nem está à espera de um príncipe. Paulina (vivida por Sigourney Weaver) é sobrevivente de tortura e estupro durante uma ditadura latino-americana. Quando ela ouve a voz do médico Roberto Miranda (Ben Kingsley), convidado inocentemente pelo marido, o advogado Gerardo, para passar a noite após ter um pneu do carro furado, seu passado invade a sala sem pedir licença. E o que poderia ser um reencontro cordial vira um tribunal improvisado com corda, cadeira e confissões forçadas.
Polanski, com seu conhecido gosto por ambientes claustrofóbicos e dilemas morais, transforma uma casa de veraneio em campo de batalha da psique. Tudo acontece ali, entre a cozinha, a sala e o quarto. O cenário é simples, mas o drama, nem um pouco. Entre sombras e relâmpagos dramáticos, os personagens giram como peças de xadrez num tabuleiro encharcado de passado mal resolvido.
O mais curioso é que, ao fim, o espectador não recebe um veredito claro. Miranda é ou não é o torturador? Paulina está certa ou vê o que quer ver? A justiça é feita ou só se encena uma catarse pessoal? O filme não responde. E é aí que mora a graça. Se é que dá para usar essa palavra num suspense psicológico com essa carga dramática.
No fundo, “A Morte e a Donzela” é sobre como todos nós, em algum momento, queremos amarrar nossas dores numa cadeira, olhar nos olhos delas e perguntar: “Por que você fez isso comigo?” Nem sempre temos uma arma à mão, ainda bem, mas o impulso é o mesmo.
E, no fim da noite, com ou sem trovões lá fora, seguimos tentando lembrar, esquecer, perdoar, ou apenas continuar. Porque, como o filme mostra, a justiça (ou a vingança pessoal) às vezes começa com um simples “eu me lembro da sua voz”.
Título original: Death and the Maiden
Lançamento: 1994
País de origem: Estados Unidos / França / Itália
Direção e roteiro: Roman Polanski (direção), roteiro adaptado da peça de Ariel Dorfman
Trilha sonora: Wojciech Kilar
Duração: 103 minutos
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “A Morte e a Donzela” está disponível na Darkflix+.
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