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CRÔNICA: IRREVERSÍVEL

Publicado em 18 de Novembro de 2025 por Wanda Pankevicius Barros

 

Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.

 

“Irreversível” é um filme que a gente atravessa, como quem cruza um túnel do metrô sem saber se, ao final, ainda será a mesma pessoa. Não porque o filme seja obscuro (não é). Nem porque exija um doutorado em Estética para entendê-lo. Ele pede, isso sim, um estômago blindado e tempo. Mas não o do relógio. Um outro, implacável, que anda apenas para frente enquanto nos observa tentar viver ao contrário.

O truque de Gaspar Noé, contar a história de trás pra frente, não é uma excentricidade de diretor querendo impressionar o festival de Cannes. É um aviso: por mais que você queira, não dá para rebobinar a fita. Já tentamos isso na vida real e o resultado costuma ser ainda pior. A vida é uma sucessão de decisões tomadas com a calma de quem escolhe legumes e verduras na feira livre. Só que, algumas vezes, essas escolhas vêm acompanhadas de consequências nefastas.

Marcus e Pierre, os dois homens que decidem fazer justiça com as próprias mãos, são a prova de que a vingança é uma emoção tão tentadora quanto inútil. Querem reverter o irreversível. Mas o que conseguem é apenas multiplicar a tragédia, acrescentando ao horror uma camada de ódio, mais um pouco de sangue e a convicção de que a justiça, quando feita no calor da raiva, costuma sair torta.

E Alex, interpretada por Monica Bellucci, é o centro silencioso de tudo. Ela nos lembra que a brutalidade não precisa de justificativas: basta existir. No mundo de Noé (que, aliás, se parece mais com o nosso do que gostaríamos), a violência não chega com trilha sonora, não avisa, não discursa. Apenas surge, como um tropeço, um telefonema errado ou aquele momento em que você resolve ser mais valente do que a valentia.

O filme termina começando, e começa terminando, para que percebamos o óbvio: não há volta para nada. Nem para a tragédia, nem para o amor, nem para o passo torto dado num momento qualquer. A vida é assim: uma sucessão de portas que só abrem para um lado. E o máximo que podemos fazer é atravessá-las com alguma elegância, ou pelo menos tentar. No balanço final, só é irreversível o que a gente insiste em repetir.

 

Título original: Irreversible

Lançamento: 2002

País de origem: França

Direção e roteiro: Gaspar Noé

Trilha sonora: Thomas Bangalter

Duração: 99 minutos

 

 Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Irreversível” está disponível na Darkflix+.

 

 

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