Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
“Cidadão Kane”, “O Poderoso Chefão”, “O Sétimo Selo” são filmes que mudam vidas. Outros, do mesmo naipe, fazem refletir sobre o universo, o amor, a finitude da existência. E temos “Rubber: o Pneu Assassino”. Uma produção tão fora da curva que o protagonista é uma roda.
Sim, você leu certo. Trata-se de um pneu. Sem automóvel. Sem motorista. Sem um alinhamento decente. Apenas um pneumático solitário que desperta no meio do deserto californiano e, ao invés de procurar um borracheiro, descobre que pode explodir cabeças com o poder da mente. Stephen King deve ter visto o filme e pensado: “esse eu não escreveria”.
A beleza de Rubber está em sua recusa obstinada de fazer qualquer sentido. Logo na primeira cena, um policial sai de um carro estacionado no meio do nada, olha para a câmera, e nos entrega um monólogo filosófico sobre o nonsense na arte e na vida. Ele diz, com grande serenidade, que em muitos grandes filmes, coisas acontecem sem razão. E ali você entende: não estamos diante de um filme, mas de um experimento sociológico conduzido por um cineasta que, sem a menor dúvida, já cheirou mais fita VHS do que deveria.
O pneu não fala. Não tem olhos. Mas ainda assim, o vemos desenvolver uma personalidade. Ele hesita. Ele observa. E, por fim, se apaixona. Sim, porque todo psicopata precisa de uma musa. E ele encontra a sua: uma mulher misteriosa, de expressão confusa. O que é compreensível, dado que está sendo seguida por um Goodyear ou um Pirelli. E, ainda por cima, homicida.
Se você imagina que está seguro por estar apenas assistindo a um longa de horror, pense duas vezes. Dentro da história há uma plateia vendo os eventos com binóculos, comentando, julgando, e em alguns casos morrendo de tédio. É como se o filme fizesse uma crítica ao próprio ato de assistir cinema trash. O que é tão metalinguagem que, se piscarmos, podemos acabar virando personagens sem querer.
Uma coisa é certa: Rubber é uma piada de humor negro, de 82 minutos, onde o diretor parece rir de você, com você, e às vezes contra você. E quer saber? Funciona. Porque, no final, se até um pneu pode encontrar seu propósito na vida, quem sou eu para desistir de achar o meu?
Título original: Rubber
Lançamento: 2010
País de origem: França
Direção, roteiro e trilha sonora: Quentin Dupieux
Duração: 82 minutos
País de origem: França
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Rubber: o Pneu Assassino” está disponível na Darkflix+.
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