Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
“O Parque Macabro” lembra um murmúrio, uma lamúria do vento atravessando um parque de diversões abandonado, e você só percebe que está arrepiado quando o silêncio começa a ficar cada vez mais alto.
Mary Henry, a protagonista, é uma moça que sobrevive a um acidente de carro. O que já é, convenhamos, um mau começo para qualquer história. Ela sai da água do rio com o olhar de quem deixou algo (ou alguém) lá embaixo, mas finge que está tudo bem. O problema é que ninguém sobrevive ileso de um mergulho no abismo. Mary tenta seguir a vida, toca órgão numa igreja da cidade, e é observada por um homem pálido. Daqueles que parecem feitos de giz e insônia. O sujeito não diz uma palavra, o que, por incrível que pareça, o torna ainda mais eloquente.
A certa altura, o filme parece menos sobre o medo de morrer e mais sobre o medo de existir depois de ter morrido. Um tema que a maioria de nós prefere adiar até a próxima segunda-feira. Herk Harvey, diretor de “O Parque Macabro”, transforma o Kansas num sonho febril, onde o banal ganha contornos de pesadelo. Não há monstros com dentes nem facas voando; há apenas a sensação incômoda de que o mundo perdeu a substância, de que o vento sopra, mas ninguém respira.
O parque abandonado é o grande personagem do longa: carrosséis que giram sozinhos, corredores que ecoam passos que não são de ninguém, luzes piscando. É ali que Mary parece finalmente encontrar seu reflexo. Ou talvez o perca de vez. A fronteira entre o real e o imaginário evapora como um espelho embaçado.
Assistir “O Parque Macabro” hoje é como abrir uma velha caixa de música que insiste em tocar mesmo sem corda. O som range, mas continua belo. A fotografia em preto e branco é um elogio à ausência: sombras que dançam, rostos que parecem prestes a desaparecer. É um filme de terror feito para quem já não se impressiona com sustos, mas se desespera com o vazio do silêncio.
No fim, Mary Henry é apenas uma viajante entre mundos, uma alma distraída que esqueceu de morrer por completo. E nós, espectadores, seguimos tocando nosso próprio órgão de igreja invisível, tentando, como ela, encontrar o tom certo entre o horror e a harmonia.
Uma coisa ao menos é certa e segura em “O Parque Macabro”: ele se tornou uma das obras mais influentes do terror moderno, referência direta para diretores como David Lynch, George A. Romero e M. Night Shyamalan. O resto é ambíguo.
Título original: Carnival of Souls
Lançamento: 26 de setembro de 1962
Direção: Herk Harvey
Roteiro: John Clifford
Trilha sonora: Gene Moore Duração: 78 minutos
País de origem: Estados Unidos
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “O Parque Macabro” está disponível na Darkflix+.
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