Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
Se você cresceu nos anos 90, há uma boa chance de ter passado noites em claro graças a uma certa caveira falante: o Guardião da Cripta, anfitrião oficial de “Contos da Cripta”. A série, baseada nos quadrinhos da EC Comics dos anos 50, prometia duas coisas em cada episódio: sustos e piadas. E, convenhamos, essa mistura é bem eficiente.
O Guardião da Cripta não era apenas um esqueleto animado; ele era praticamente um stand-up comedian do além-túmulo. Antes mesmo da história começar, lá vinha ele com sua típica gargalhada macabra. Depois, disparava trocadilhos sobre morte e outros temas metafísicos. Eu, ainda jovem, ria sem entender metade dos jogos de palavras, mas ficava hipnotizado. Afinal, como resistir a um apresentador que parecia ter feito estágio no inferno?
Os episódios eram um espetáculo à parte. Havia de tudo: gananciosos que terminavam picados em pedacinhos, adúlteros que pagavam caro pelo excesso de libidinosidade, cientistas que descobriam que brincar de Frankenstein não é um hobby saudável. A moral da história era sempre clara: se você é egoísta, traíra ou ambicioso demais, prepare-se para virar banquete de zumbis. Basicamente, “Contos da Cripta” funcionava como um curso intensivo de ética, só que narrado por cadáveres e regado a litros de ketchup.
Uma das delícias da série era o exagero. Ninguém morria discretamente; todo mundo precisava gritar, correr e tropeçar em móveis antes de ser arrastado para o além. Era um balé macabro, coreografado por alguém que tinha acabado de assistir a cinco filmes do Tarantino seguidos. E, por incrível que pareça, mesmo com tantas hemácias jorrando, o programa tinha seu charme. Não era apenas terror: era rir do próprio medo.
Talvez seja por isso que “Contos da Cripta” marcou época. A série não tratava o espectador como vítima, mas como cúmplice. O Guardião da Cripta não dizia: “Prepare-se para sofrer.” Ele somente cochichava: “Vem rir comigo da desgraça alheia.” Era uma aula sobre a beleza grotesca de não se levar tão a sério, mesmo quando a foice do destino já está passando manteiga na sua cabeça.
Hoje, ao rever a série, percebo que seu maior truque não era o susto, mas o riso nervoso que ela provocava. O medo vinha e passava; já a gargalhada do Guardião da Cripta continua ecoando como uma música-tema que se recusa a sair da memória, mesmo décadas depois.
Ficha técnica
- Título original: Tales from the Crypt
- Formato: Série de antologia (terror / humor negro)
- País de origem: Estados Unidos
- Ano de lançamento: 1989
- Ano de término: 1996
- Temporadas: 7
- Episódios: 93
- Principais atores convidados: Demi Moore, Tom Hanks, Brad Pitt, Whoopi Goldberg, Arnold Schwarzenegger (que também dirigiu um episódio), Joe Pesci, Michael J. Fox, Dan Aykroyd e Steve Buscemi.
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Contos da Cripta” está disponível na Darkflix+.
DARKFLIX+ é um serviço de streaming de filmes e séries dos gêneros terror, ficção-científica e fantasia. Baixe o aplicativo DARKFLIX+ no seu celular ou tablet diretamente de sua loja de aplicativos ou acesse pelo site www.darkflixplus.com.br. Para ter acesso ao conteúdo pago basta assinar o serviço por R$ 9,90/mês, ele pode ser pago através de cartões de crédito. A DARKFLIX+ está disponível em diversos sistemas operacionais e dispositivos de Smart TVs, como o Tizen, webOS, Roku, Android TV, Chromecast, além de iOS e Android (mobile), entre outros. Também está disponível para assinatura pela Claro tv+.