Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
Se você acha que cidade pequena é sinônimo de fofoca e coreto na praça, é porque nunca desembarcou em Summerisle. Lá, cada rosto sorri com a tranquilidade de quem sabe algo que você não sabe.
O “Homem de Palha” (1973) começa como uma típica história de investigação: um sargento britânico, sério como ata de cartório, viaja para essa ilha remota para esclarecer o sumiço de uma menina. Parece simples, mas logo se percebe que em Summerisle o normal foi redefinido para incluir desfiles com máscaras de animais, canções folclóricas entoadas em momentos inesperados e uma devoção religiosa que não é exatamente a que seu professor de catecismo ensinou.
O charme do lugar é inegável. Os campos são verdes, o vento carrega aroma de flores e frutas, e a população é hospitaleira. Só que essa hospitalidade vem com perguntas enigmáticas e risadinhas irônicas que fariam qualquer visitante checar a data do próximo barco de volta ao continente.
O sargento, um homem de fé, vai se aprofundando nos costumes locais com o olhar de quem se sente convidado para um chá das cinco, mas descobre que a mesa está posta para outras funções. Os habitantes, sempre solícitos, respondem suas perguntas de modo tão evasivo quanto um político.
E, enquanto ele percorre a ilha, cada conversa parece ser mais um passo dentro de um labirinto de tradições, mitos e celebrações que misturam inocência pastoral com uma pitada de desconforto. O espectador, assim como o policial, começa a sentir que há uma coreografia acontecendo ali. E ele não recebeu o convite, nem o figurino.
O mais fascinante em “O Homem de Palha” é como o terror nunca aparece na forma de um grito, mas como um canto alegre ao fundo. A luz do sol está sempre presente, como se dissesse: “Aqui não há nada a temer”. Mas o incômodo só cresce. Certas coisas não se encaixam. E quando, por fim, percebemos que cada detalhe tinha seu lugar na dança, já é tarde demais para interromper a valsa.
Mais de cinco décadas depois, “O Homem de Palha” segue como um dos pilares do folk horror, não apenas por sua ambientação insólita, mas pela maneira como combina elementos do mistério policial e dos rituais pagãos em um único feixe cinematográfico. A obra mostrou que o medo pode florescer em plena luz do dia. E que, no cinema, a colheita mais fértil é aquela plantada na mente do espectador.
Título original: The Wicker Man (Final Cut)
Ano de produção: 1973
Direção: Robin Hardy
Roteiro: Anthony Shaffer — baseado no romance Ritual de David Pinner (1967)
Trilha sonora: Paul Giovanni
Duração: 93 minutos
País de origem: Reino Unido
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Homem de Palha” está disponível na Darkflix+.
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