Texto de Carlos Castelo
Jornalista, poeta e publicitário.
Em um universo cinematográfico onde o terror muitas vezes se resume a sustos repentinos e litros de sangue fake, O Rebanho é um sussurro. Daquelas vozes que cochicham no ouvido da alma e deixam a gente com vontade de acender todas as luzes da casa, mesmo sendo meio-dia.
Dirigido por Małgorzata Szumowska, esse pesadelo pastoral nos apresenta um mundo onde as mulheres vivem sob a sombra opressora de um homem que se autointitula Pastor. Ele guia seu “rebanho” de mulheres e meninas com a segurança de quem acha que Deus está no grupo do WhatsApp. As esposas usam vermelho; as futuras companheiras, azul. Tudo é bonito, limpo, simétrico, mas absolutamente aterrador.
E aqui vai o truque: O Rebanho não grita. Ele murmura. E talvez seja exatamente isso que o torna tão desconcertante. O filme constrói seu horror na ausência: ausência de cidade, de tempo, de esperança. O isolamento do culto é quase um personagem. Você olha e pensa: Isso poderia ser em qualquer lugar. Até aqui na minha cidade.

Raffey Cassidy brilha como Selah, uma jovem ovelha que começa a desconfiar que talvez o Pastor seja mais lobo do que líder espiritual. A transformação dela é lenta, dolorosa e simbólica. Um típico “coming of age” com brumas, rituais e banhos na lama. Porque crescer dói e deve ser gelado.
O uso das cores é cruel de tão bem feito. Azul e vermelho, juventude e submissão carimbada. O branco do Pastor, claro, como se ele fosse a pomba da paz. Mas com olhos de falcão e sorriso de coach espiritual de seita picareta. A trilha sonora é inquietante. Minimalista, no entanto, com a capacidade de fazer os pelos do braço entrarem em posição de defesa.
Não espere diálogos expositivos. Aqui ninguém vai parar tudo para explicar o dogma da seita como se você fosse um turista. Tudo é mostrado, sugerido, insinuado.
O desfecho é mais um grito visual do que uma conclusão tradicional. É daqueles finais que dividem opiniões, mas deixam marcas. Marcas profundas, com o filme tatuando em nossa mente: “Cuidado com quem diz que te ama”.
O Rebanho significa menos religião e mais o uso dela como desculpa para obtenção de poder. É um terror que não precisa de monstros (os melhores). Afinal, os mais abjetos já estão entre nós, com voz mansa, olhar piedoso e discurso edulcorado.
No final, fica o aviso: até as ovelhas mais dóceis podem arrebentar a cerca. “O Rebanho” está disponível na Darkflixt, você tem coragem?
– Título original: The Other Lamb
– Ano de produção: 2019
– Direção: Małgorzata Szumowska
– Roteiro: Catherine Smyth-McMullen
– Gênero: Drama, horror
– Duração: 97 minutos
– Idioma original: Inglês
– Estreia mundial: 6 de setembro de 2019
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária.
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