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O REBANHO

Publicado em 14 de Julho de 2025 por Wanda Pankevicius Barros

Texto de Carlos Castelo

Jornalista, poeta e publicitário.

Em um universo cinematográfico onde o terror muitas vezes se resume a sustos repentinos e litros de sangue fake, O Rebanho é um sussurro. Daquelas vozes que cochicham no ouvido da alma e deixam a gente com vontade de acender todas as luzes da casa, mesmo sendo meio-dia.

Dirigido por Małgorzata Szumowska, esse pesadelo pastoral nos apresenta um mundo onde as mulheres vivem sob a sombra opressora de um homem que se autointitula Pastor. Ele guia seu “rebanho” de mulheres e meninas com a segurança de quem acha que Deus está no grupo do WhatsApp. As esposas usam vermelho; as futuras companheiras, azul. Tudo é bonito, limpo, simétrico, mas absolutamente aterrador.

E aqui vai o truque: O Rebanho não grita. Ele murmura. E talvez seja exatamente isso que o torna tão desconcertante. O filme constrói seu horror na ausência: ausência de cidade, de tempo, de esperança. O isolamento do culto é quase um personagem. Você olha e pensa: Isso poderia ser em qualquer lugar. Até aqui na minha cidade.

 

 

Raffey Cassidy brilha como Selah, uma jovem ovelha que começa a desconfiar que talvez o Pastor seja mais lobo do que líder espiritual. A transformação dela é lenta, dolorosa e simbólica. Um típico “coming of age” com brumas, rituais e banhos na lama. Porque crescer dói e deve ser gelado.

O uso das cores é cruel de tão bem feito. Azul e vermelho, juventude e submissão carimbada. O branco do Pastor, claro, como se ele fosse a pomba da paz. Mas com olhos de falcão e sorriso de coach espiritual de seita picareta. A trilha sonora é inquietante. Minimalista, no entanto, com a capacidade de fazer os pelos do braço entrarem em posição de defesa.

Não espere diálogos expositivos. Aqui ninguém vai parar tudo para explicar o dogma da seita como se você fosse um turista. Tudo é mostrado, sugerido, insinuado.

O desfecho é mais um grito visual do que uma conclusão tradicional. É daqueles finais que dividem opiniões, mas deixam marcas. Marcas profundas, com o filme tatuando em nossa mente: “Cuidado com quem diz que te ama”.

O Rebanho significa menos religião e mais o uso dela como desculpa para obtenção de poder. É um terror que não precisa de monstros (os melhores). Afinal, os mais abjetos já estão entre nós, com voz mansa, olhar piedoso e discurso edulcorado.

No final, fica o aviso: até as ovelhas mais dóceis podem arrebentar a cerca. “O Rebanho” está disponível na Darkflixt, você tem coragem?

        – Título original: The Other Lamb

         – Ano de produção: 2019

         – Direção: Małgorzata Szumowska

         – Roteiro: Catherine Smyth-McMullen

         – Gênero: Drama, horror

        – Duração: 97 minutos

         – Idioma original: Inglês

         – Estreia mundial: 6 de setembro de 2019

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária.

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