Uma das coisas fascinantes de crescer junto com a programação de TV é conseguir lembrar de alguns momentos em que ver uma nova série é tão impactante como assistir um épico no cinema quando você ainda não tem o senso crítico. É tudo novo, tudo diferente e, claro, tudo surpreendente. Foi assim quando vi o primeiro episódio de “A Quinta Dimensão”, nos idos da década de 60, na extinta TV Excelsior, em São Paulo.
O episódio já começava com o narrador alertando o espectador que a transmissão estava controlada. Tudo o que iriamos assistir ali eu, meu irmão Mauro, e meus pais Paulão e Zezé, estava sendo controlado por alguém que queria nossa atenção total. E conseguiu…
Na hora seguinte, acompanhamos um engenheiro de rádio, feito por Cliff Robertson, fazendo uma experiência com transmissões avançadas para chegar até a Constelação de Andrômeda. Em poucos minutos, ele consegue se conectar com um ser de uma outra galáxia, mas um acidente acaba por capturar o alienígena, que inicia uma mortal caminhada entre nós.
Mesmo com minha licença poética para explicar o que tinha visto junto com a família, ficou marcado em minha mente. Fã de ficção, continuei vendo e revendo “A Quinta Dimensão”, que é considerado a melhor antologia do gênero criada para a televisão. São poucas os episódios que ficaram abaixo da média e, ainda assim, conseguiam manter o impacto que a série teve sobre a família Pereira naquele momento.
Hoje, revendo a série através da Darkflix+, meu conceito sobre a criação de Leslie Stevens aumentou ainda mais. Especialmente, quando vemos algumas bravas tentativas de chegar perto do conceito de quinta dimensão, como na série dos anos 90, produzida pelo canadense Pen Densham e exibida pelo antigo canal pago MGM Gold. Em tempos de redes sociais e tecnologia que coloca um supercomputador dentro de um aparelho telefônicos, talvez a criação de Charlie Brooker, Black Mirror, possa ter o mesmo tipo de impacto nas novas gerações.
Nada melhor do que conhecer um pouco do que Leslie Stevens levou para a televisão nos anos 60, cuja introdução deixa todo mundo preocupado com que estava acontecendo naquele momento em que a Rede ABC ou a TV Excelsior anunciava que a próxima atração era “A Quinta Dimensão”:
“Não há nada de errado com seu televisor. Não tente ajustar a imagem. Nós controlamos a transmissão. Nós controlamos o horizontal. Nós controlamos o vertical. Podemos deixar a imagem desfocada. Ou clara como cristal. Durante a próxima hora, sente-se confortavelmente em silêncio e controlaremos tudo o que você vê e ouve. Você está prestes a participar de uma grande Aventura. Você irá experimentar o temor e o mistério que vão do interior de sua mente até a Quinta Dimensão”.
O Lado Negro da Ficção-Científica
Quando “A Quinta Dimensão” estreou na televisão americana em 1963, o público já estava relativamente familiarizado com histórias de ficção-científica e suspense. Séries como “Além da Imaginação”, “Impacto” e “Um Passo Além”, haviam aberto caminho ao explorar o insólito e o fantástico em episódios independentes. No entanto, havia uma diferença fundamental: enquanto “Além da Imaginação” frequentemente flertava com a ironia, a parábola moral e até certo lirismo, “A Quinta Dimensão” mergulhava em um território mais frio, inquietante e, em muitos casos, profundamente pessimista.
Criada por Leslie Stevens (Buck Rogers no Século 25), com forte contribuição do roteirista Joseph Stefano (que escreveu “Psicose” para Alfred Hitchcock), “A Quinta Dimensão” nasceu em um contexto histórico muito específico. Era o auge da Guerra Fria, um período em que avanços científicos conviviam com o medo constante de aniquilação nuclear, espionagem e perda de controle tecnológico.
Diferentemente de outras produções da época, que muitas vezes tratavam alienígenas como ameaças externas claras ou metáforas simplificadas, a série optava por narrativas mais ambíguas. O “monstro” nem sempre vinha de fora — frequentemente era resultado da própria ambição humana.
Episódios como Arquitetos do Medo ou O Homem que Nunca Nasceu ilustram bem essa abordagem: cientistas, militares e governos aparecem não como heróis absolutos, mas como agentes de decisões moralmente questionáveis. Em Arquitetos do Medo, um grupo de cientistas cria um plano para acabar com todos os conflitos mundiais, simulando uma invasão alienígena. Para isso, um dos seus, feito por Robert Culp (“Os Destemidos”), se submete a um procedimento que vai transformá-lo numa criatura não-humana. Essa deve ter sido a fonte de inspiração de Alan Moore para criar o cultuado quadrinho “Watchmen” nos anos 80.
Um tom mais sério e existencial
O grande diferencial de “A Quinta Dimensão” em relação a outras séries dos anos 50 e 60 está no seu tom. Enquanto muitas produções da época buscavam, finais surpreendentes, reviravoltas morais simples ou alegorias mais acessíveis em seus episódios, “A Quinta Dimensão” deixa regularmente finais abertos ou trágicos, uma visão maligna do progresso científico, com seus dilemas éticos questionáveis.
Temas como manipulação genética do episódio O Sexto Dedo; perda da identidade humana em Os Camundongos; o controle estatal em Pesadelo; e a inteligência artificial em O Demônio da Mão de Vidro, são lembrados como preciosidades da dramaturgia televisiva dos anos 60. Ao mesmo tempo, a série se destacava, mesmo com orçamento limitado, com sua fotografia estilizada como no expressionismo alemão, a criação de monstros e criaturas sem efeitos visuais elaborados, tudo reunido com o máximo de suspense psicológico.
A trajetória de “A Quinta Dimensão” revela mais do que a evolução de uma série: expõe a transformação dos medos da sociedade ao longo do tempo. Se hoje o temor de ser substituído por uma inteligência artificial ou não conseguir diferenciar uma simples informação de uma mentira gerada pelas redes sociais, nos anos 60, a ameaça vinha do desconhecido e da possibilidade de destruição global. Enquanto as derivações psicológicas da guerra fria pontuavam a série de Leslie Stevens, as ideias bizarras levadas às últimas consequências de “Black Mirror” sobre o mau uso da tecnologia fazem parte do dia a dia do agregado humano dentro da chamada sociedade moderna.
Entre uma fase e outra, mudam os efeitos, o ritmo e a forma de narrar. Mas a essência permanece: provocar o espectador a questionar até onde o ser humano deve ir. E, sobretudo, lembrar que, às vezes, o verdadeiro terror não está no que vem de fora, mas no que já criamos.
Em 1995, o produtor Pen Densham trouxe para o final do século 20, uma versão atualizada de “A Quinta Dimensão” produzida pela MGM. Mas isso é assunto para uma outra vez…
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
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