Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
Há momentos na vida em que tudo muda. Alguns encontram a fé numa igreja. Outros, no fundo de uma garrafa de uísque. E há aqueles que, como eu, experimentam o renascimento espiritual diante de um streaming exibindo O Ataque dos Tomates Assassinos.
Tudo começou com meu filho Pedro, que me trouxe, de uma viagem a Los Angeles, um CD com a trilha sonora do tal filme. Ele sorriu e disse:
— Pai, você PRECISA ver esse filme.
Nada de bom começa com a frase “você precisa ver”. Ainda assim, por amor paternal, e por não ter absolutamente nada melhor para fazer numa terça-feira à noite, decidi assistir.
Epifania. Eis a palavra.
Ali estava eu, diante da mais sublime aberração cinematográfica já concebida por mentes humanas. E também por alguns tomates, considerando o protagonismo vegetal da coisa.
O filme é uma ode ao nonsense. Um monumento de celuloide à estupidez elevada à arte. Um desfile de atuações piores que dor no ciático, com efeitos especiais dignos de um Corel Draw feito por um chimpanzé bêbado. E um enredo que parece ter sido escrito por um grupo de estagiários trancados numa sala.
Mas eis o milagre: aquilo funciona. Não como cinema, claro. Mas enquanto experiência espiritual, O Ataque dos Tomates Assassinos é uma revelação.
Logo de cara, comecei a rir. Não aquele riso educado que se dá em jantares, mas uma gargalhada sincera: como se todas as minhas células tivessem descoberto, ao mesmo tempo, a ironia do mundo. Gargalhei da perseguição dos tomates, das mortes absurdas. E do fato inquestionável de que, em algum momento da história, alguém conseguiu financiamento para fazer esse filme.
Ali entendi tudo. O cinema. A arte. A vida. Lá estava a mensagem profunda que O Poderoso Chefão jamais ousou revelar: a humanidade não precisa de lógica, coerência ou senso estético. Necessita apenas de tomates homicidas, e de uma trilha sonora que faria vergonha até a um karaokê de beira de estrada.
Desde aquele dia, percebo o mundo com olhos entomatados. Assisto ao noticiário e me pergunto: quantos desses políticos foram mordidos por tomates radioativos? Caminho pelo supermercado e passo longe da seção de hortifrúti. Desconfio de ketchups. E, acima de tudo, agradeço ao Pedro, que me deu um presente maior do que qualquer sinfonia: o riso diante do absurdo.
E agora, toda vez que alguém me pergunta qual foi o filme que mais me impactou, respondo sem hesitar:
— O Ataque dos Tomates Assassinos.
Recomendo, sim. Mas só para quem tem coragem de encarar a vida como ela é: um molho vinagrete mal temperado, onde, às vezes, o que te mata não é o destino, mas um legume com sede de sangue.
- Título original: Attack of the Killer Tomatoes
- Ano: 1978
- País: Estados Unidos
- Direção: John De Bello
- Roteiro: John De Bello, Costa Dillon, Stephen Peace
- Gêneros: Ficção científica, comédia, horror, musical
- Duração: 87 minutos
- Idioma: Inglês
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária.
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