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Crônica: “Um Lobisomem Americano em Londres”

Publicado em 19 de Fevereiro de 2026 por Wanda Pankevicius Barros

Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.

 

Este filme foi um dos meus favoritos da época em que eu tinha vinte e poucos. Revi-o recentemente. Mas, confesso, com aquele receio de reencontrar um amor antigo e descobrir que ele agora fala alto demais. Mas não: “Um Lobisomem Americano em Londres” continua vivo. Talvez até mais vivo do que muita coisa produzida hoje em dia.

Na época, o que me fascinava era a ousadia. Horror e comédia não costumavam dividir a mesma cama sem brigar pelo cobertor. John Landis conseguiu fazer os dois gêneros respirarem no mesmo pulmão. O riso não alivia o terror, ele o torna mais incômodo. A gargalhada vem sempre meio engasgada, lembrando ao espectador que a morte está sentada na poltrona ao lado, comendo pipoca.

Reassistindo o longa agora, o que salta aos olhos é a melancolia escondida sob o humor. David não é um herói; é um turista amaldiçoado, perdido num país estrangeiro. O hospital londrino, a enfermeira gentil, o romance improvável, tudo parece um intervalo entre duas catástrofes. O fantasma de Jack, apodrecendo em estágios progressivos, é ao mesmo tempo alívio cômico e sentença moral: a vida continua, mas o cadáver não esquece.

E então há a transformação. Ainda hoje é desconfortável de assistir, o que diz muito. Não é uma metamorfose elegante. É quase uma agressão física. Criou-se ali uma linguagem para o horror: o corpo como espetáculo e punição. A cena não envelheceu porque o medo que ela provoca não depende de tecnologia, mas de empatia. Todo mundo entende o pavor de habitar algo que deixou de ser você.

O clímax em Londres é cruel em sua ironia. Um monstro solto em um centro turístico, carros colidindo, sirenes, vitrines. A modernidade esmagada por um pesadelo primitivo. Landis filma o caos com um ritmo quase musical, como se dissesse: civilização é só um verniz fino, basta uma mordida para rachar.

Vendo o filme décadas depois, percebo que talvez fosse isso o que me atraía: a ideia de que a juventude também é uma forma de licantropia. Um período em que o corpo muda sem pedir autorização, e em que o mundo é estrangeiro.

Um Lobisomem Americano em Londres continua vivo. Talvez até mais vivo do que muita coisa produzida hoje em dia.

 

Título original: An American Werewolf in London

Lançamento: 1981

País de origem: Estados Unidos / Reino Unido

Direção: John Landis

Duração: 97 minutos

Roteiro: John Landis

Trilha sonora: Elmer Bernstein

 

 Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Um Lobisomem Americano em Londres” está disponível na Darkflix+.

 

 

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