Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.
Há filmes de terror que gritam na sua cara: “Buuu!”. Outros que jogam litros de sangue na tela. Mas “Possum”, faz algo muito mais perverso: ele se senta ao seu lado em silêncio, coloca um boneco de aranha com cabeça rachada no seu colo e espera. Só espera.
A experiência é quase como visitar a casa daquele tio estranho que guarda bonecos de porcelana na estante. Você sabe que eles não vão piscar, mas o silêncio já é o suficiente para você desejar uma dose tripla de chá de camomila.
O protagonista, Philip, é um ventríloquo que parou no tempo. Ele volta à sua cidade natal, que é tão acolhedora quanto uma roça de rabanetes abandonada, para enfrentar seu padrasto, um sujeito que transpira crueldade.
E aí temos o verdadeiro astro do filme: o fantoche Possum. Imagine uma aranha gigante com cabeça de boneca, que nem aquelas que você encontra em feiras de antiguidade e pensa: “isso está amaldiçoado”. Possum não fala, mas a sua mera presença dá vontade de chamar os Ghostbusters.
A narrativa é lenta feito o gotejar de uma torneira na madrugada: irrita, incomoda. Esse ritmo serve para algo importante: nos afundar no trauma psicológico de Philip. Cada plano é um lembrete de que o verdadeiro monstro não está escondido no armário, mas no passado que a gente insiste em fingir que já superou.
É um terror de silêncio, não de gritos. Um terror de memória, não de monstros. E isso é justamente o que torna “Possum” tão eficaz: ele não nos dá a chance de escapar para o susto fácil, nos obriga a encarar o desconforto puro, cru, inominável.
Claro, não é um filme para todo mundo. Quem busca zumbis ou palhaços assassinos talvez fique frustrado. Mas para quem gosta de mergulhar na psicologia do medo, “Possum” é um pesadelo artesanal, feito sob medida para deixar aquela sensação de “não sei por que, mas não quero olhar debaixo da minha cama hoje”.
Quando os letreiros sobem, a lição é clara: bonecos não deveriam ter cabeça partida, aranhas não deveriam ser do tamanho de bezerros, e ninguém deveria voltar para a casa do padrasto se este parece um vilão de contos de fadas.
Título original: “Possum”
Ano de produção: 2018
Direção: Matthew Holness
Roteiro: Matthew Holness
Trilha sonora: Andrew Hewitt
Duração: 82 minutos
País de origem: Reino Unido
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Possum” está disponível na Darkflix+.
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