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Crônica: Enquanto Você Dorme

Publicado em 5 de Março de 2026 por Wanda Pankevicius Barros

Há porteiros que abrem a porta para você. E há porteiros que fazem algo bem mais delicado: abrem a porta de seu apartamento e entram. César, protagonista de Enquanto Você Dorme, não é apenas o funcionário que recebe encomendas e deseja bom dia com um sorriso burocrático. Ele é o síndico invisível da sua felicidade.

Dirigido por Jaume Balagueró — o mesmo de REC — o filme abandona zumbis e câmeras trêmulas para apostar no horror mais econômico e, por isso mesmo, mais indigesto: o horror da convivência. Nada de demônios. O mal aqui usa uniforme, conhece o CPF dos moradores e sabe exatamente quando costumam dormir.

César, interpretado com uma serenidade perturbadora por Luis Tosar, sofre de um problema grave: não suporta a felicidade alheia. É um homem incapaz de experimentar alegria, mas profundamente talentoso para estragá-la. Ele não quer dinheiro. Não quer poder. Quer apenas que ninguém seja mais contente do que ele. É um socialista às avessas: distribui tristeza com equidade. Sua rotina é simples. Observa. Anota. Estuda fraquezas. E age enquanto os outros descansam.

A chegada de Clara, vivida por Marta Etura, complica seu projeto de nivelamento emocional por baixo. Ela é luminosa. Para César, isso é uma afronta. Uma provocação. Clara não sabe, mas está travando uma guerra silenciosa contra um homem cujo único hobby é corroer sorrisos.

O mais inquietante é que o filme não exagera. Não há trilha gritando susto a cada esquina. A tensão nasce do cotidiano: o elevador, a correspondência, a chave reserva. Balagueró filma como quem espia pelo olho mágico. E nos transforma em cúmplices. Assistimos sabendo mais do que as vítimas, impotentes feito vizinhos que ouvem um barulho estranho e preferem aumentar o volume da televisão.

A crítica elogiou o suspense e as reviravoltas. Mas o que fica é algo mais incômodo: a ideia de que a maldade pode ser metódica, paciente e administrativa. Não é o vilão grandiloquente que deseja dominar o mundo. É o funcionário que deseja diminuir o seu.

Enquanto Você Dorme é um thriller sobre inveja, solidão e o prazer secreto de arranhar o verniz do outro. Depois dele, você talvez olhe diferente para o porteiro do seu prédio. Não por paranoia (embora um pouco dela nunca seja demais). Mas porque o filme lembra algo fundamental: a felicidade, em prédios e condomínios, tem paredes finas. E alguém pode estar escutando.

Título original: Mientras duermes

Lançamento: 14 de outubro de 2011 (Espanha)

País de origem: Espanha (coprodução com México)

Direção: Jaume Balagueró

Duração: 102 minutos

Roteiro: Alberto Marini

Trilha sonora: Michel Alamo

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “Enquanto Você Dorme” está disponível na Darkflix+.

 

 

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