• Crônica
  • Darkflix

Crônica: Aldeia dos Amaldiçoados

Publicado em 16 de Dezembro de 2025 por Wanda Pankevicius Barros

 

Texto de Carlos Castelo – Jornalista, poeta e publicitário.

 

Nada explode em Midwich. Pessoas, animais e visitantes simplesmente desabam onde estão. Quando todos acordam, horas depois, o mundo parece igual. E é exatamente aí que mora o problema.

O Exército cerca a região, cria uma zona de exclusão, mede radiações, traça hipóteses. Tudo é tratado com a frieza administrativa típica das grandes catástrofes mal compreendidas. Nada se resolve, apenas se adia. O sono coletivo passa, mas deixa um rastro invisível.

Meses depois, esse rastro ganha forma humana. Todas as mulheres férteis de Midwich dão à luz crianças idênticas: loiras, olhos claros, comportamento organizado. Não choram à toa, não brincam sem propósito, não erram. Pensam como adultos. Ou pior, como máquinas. “A Aldeia dos Amaldiçoados” não precisa explicar muito: basta observá-las sentadas em silêncio, olhando em conjunto, como um coral sem maestro.

O detalhe dos olhos brilhantes, único efeito especial mais explícito da obra, funciona menos como espetáculo visual e mais como aviso moral. Aqueles olhos não refletem sentimentos, apenas intenções. Quando encaram um adulto, não pedem afeto: exigem obediência. E obedecer, ali, passa a ser uma questão de sobrevivência.

O professor Gordon Zellaby, interpretado por George Sanders, surge como o último bastião da crença racional. Ele observa, anota, tenta compreender. Seu drama não é apenas científico, mas ético: até que ponto é possível negociar com algo que não compartilha valores humanos? Zellaby acredita que entender é conter: um princípio iluminista de que o filme se encarrega de desmontar com elegância cruel.

Produzido pela MGM em seus estúdios britânicos, “A Aldeia dos Amaldiçoados” enfrentou resistência desde sua concepção. A ideia de nascimentos simultâneos, sem consentimento e com implicações demoníacas, causou desconforto em atores e público. Ronald Colman recusou o papel principal, temendo o impacto do tema. O desconforto, no entanto, é precisamente o motor do filme.

Com apenas 77 minutos, o diretor Wolf Rilla constrói uma tensão seca, sem explicações fáceis. O confronto final, silencioso e sacrificial, é menos um clímax do que uma constatação amarga: certas ameaças não podem ser integradas ao mundo humano.

O legado do filme é amplo. Inspirou uma sequência em 1964, um remake dirigido por John Carpenter em 1995 e uma linhagem inteira de histórias sobre crianças ameaçadoras. Mas poucas obras captaram tão bem quanto esta o pavor essencial que ela propõe: o de um futuro que não precisa de nós. E sabe disso.

 

Título original: Village of the Damned

Lançamento: 1960

País de origem: Reino Unido

Direção: Wolf Rilla

Roteiro: Wolf Rilla, Stirling Silliphant e Ronald Kinnoch (baseado no romance The Midwich Cuckoos, de John Wyndham)

Trilha sonora: Ron Goodwin

 

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “A Aldeia dos Amaldiçoados” está disponível na Darkflix+.

 

 

DARKFLIX+ é um serviço de streaming de filmes e séries dos gêneros terror, ficção-científica e fantasia. Baixe o aplicativo DARKFLIX+ no seu celular ou tablet diretamente de sua loja de aplicativos ou acesse pelo site www.darkflixplus.com.br. Para ter acesso ao conteúdo pago basta assinar o serviço por R$ 9,90/mês, ele pode ser pago através de cartões de crédito. A DARKFLIX+ está disponível em diversos sistemas operacionais e dispositivos de Smart TVs, como o Tizen, webOS, Roku, Android TV, Chromecast, além de iOS e Android (mobile), entre outros. Também está disponível para assinatura pela Claro tv+.