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Cinema em Perspectiva: “O Comboio do Medo”, a versão de William Friedkin para “O Salário do Medo”

Publicado em 3 de Fevereiro de 2026 por Wanda Pankevicius Barros

 

Texto de Paulo Gustavo Pereira – Jornalista e apresentador.

 

Quando assisti pela primeira vez “Sete Homens e um Destino” (1960), numa sessão de cinema televisiva, sabia da importância da obra de John Sturges pelo comentário que vi no extinto Jornal da Tarde na coluna Os Filmes de Hoje na TV, escrita pelo saudoso Rubens Ewald Filho. No texto, Rubens dizia que esse grande faroeste clássico tinha origem num filme do qual nunca tinha visto, mas conhecia o responsável pela construção desse outro clássico do cinema: Akira Kurosawa e o seu “Os 7 Samurais”, de 1954.

Anos depois, consegui assistir ao filme de Kurosawa numa mostra de cinema da Fundação Cultural Japão. Que filme, que fotografia, que atual e, claro, uma história cuja essência está no filme de Sturges, 16 anos depois. Essa mesma essência, pude sentir na versão estrelada por Denzel Washington e dirigida por Antoine Fuqua. Ação, emoção, e a luta dos pequenos contra os poderosos.

Há pouco menos de dois anos, me deparei com outro momento do cinema que não conhecia e, para minha surpresa, duas outras versões chegaram recentemente a mim. Estou falando de “O Salário do Medo” (1953), adaptação cinematográfica do livro do francês George Arnaud, publicado em 1950.

A história parecia algo simples: um grupo de desajustados vivendo num país latino, tem a chance de faturar “uma grana boa”, se transportarem nitroglicerina até um campo de petróleo que está em chamas. Não é uma situação heroica. Os personagens superam o medo de morrer por causa da ganância. Serão dois caminhões conduzidos por quatro pessoas. Se por acaso, alguém não conseguir chegar no destino, o dinheiro fica para quem sobreviver.

Há dois anos, a Criterion, uma das grandes empresas que mantém vivo o mercado de mídia física para filmes e séries, relançou uma edição especial em blue-ray de “The Wages of Fear”, o nosso conhecido “O Salário do Medo”. Para sua informação, caro leitor, a empresa tem lançado vários filmes clássicos em edições restauradas, com material extra de entrevistas e documentários sobre a produção do filme.

Mas coisa não parava em conseguir assistir a esse filme. A Netflix lançou em 2024, uma nova versão do filme, produzida na França. E lendo sobre o diretor William Friedkin, o cineasta que fez “Operação França” (1971) e “O Exorcista” (1973), descobri que ele também tinha feito uma versão do filme de 1953, com o nome de “Sorcerer” (1977), batizado no Brasil de “O Comboio do Medo”.

Pronto, minha curiosidade ganhou proporção de obsessão. Tinha que assistir as três versões do filme, e tinha que começar com o original de Henri-Georges Clouzot, cineasta francês que já conhecia pelo suspense “As Diabólicas” (1955), que assisti na TV e depois consegui rever em VHS pela VTI-Network.

“O Salário do Medo” pode ter dado prestígio ao diretor, que ganhou ao mesmo tempo a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Urso de Ouro no Festival de Berlim, o primeiro filme a ganhar esses dois prêmios no mesmo ano. A produção não foi lá das mais tranquilas. A ideia de filmar na Espanha foi deixada de lado quando Yves Montand se recusou a filmar lá por causa do regime político do ditador Francisco Franco. Esse foi o primeiro filme de Montand num papel dramático.

A produção foi para o sul da França, onde a vila latina retratada no filme teve que ser construída do zero. Sem contar que as condições climáticas ajudaram a estourar o orçamento, outra dor de cabeça para o cineasta. Não existe uma informação exata sobre a localização do vilarejo da história. Muitos especulam que poderia ser a Venezuela, que tinha começado a exploração do petróleo no final do século 19. Algo que não tem muita relevância em relação as outras duas versões.

O fato é que recebi “O Salário do Medo” em BD, depois assisti a versão moderna disponível na Netflix, e depois, descobri navegando no canal streaming Darkflix+, o notável  “O Comboio do Medo”, de William Friedkin. O que achei de cada um deles, você vai saber no comentário que escrevi sobre cada um dos filmes para essa matéria especial de “O Salário do Medo”.

 

O Salário do Medo (1953). Direção de Henri-Georges Clouzot. Com Ives Montand, Charles Vanel, Folco Lulli, Peter Van Eyck e Vera Clouzot. (Disponível em BD pela NR Filmes)

Se existe uma coisa que sou muito leal aos filmes do século 20 é em relação à sua duração. Hoje, muitas produções têm mais de 2 horas e meia de duração, e quase não conseguem contar a história. Por isso, as 2 horas e 36 minutos do filme fora muito bem consumida, especialmente após saber que a primeira versão do filme, teve que tirar várias referências aos Estados Unidos, para não parecer uma provocação ou racismo.

Na primeira hora do filme, Clouzot constrói cada um dos personagens, como suas vidas foram do ruim para pior, a ponto de sobreviverem numa vila de alguma país latino do terceiro mundo. Suas falhas são meticulosamente descritas em suas atitudes, ora covardes, ora canalhas, tentando eles mesmos esquecerem porque suas cativantes personalidades os deixaram chegar naquele fundo de poço.

Feito isso, vamos falar sobre a tragédia. Um incêndio num campo de petróleo pode devastar totalmente a região, se os técnicos da exploradora de óleo, não conseguirem deter o fogo. A única forma disso, como manda o procedimento, é explodir o poço para que a chama se apague. E para isso, nada melhor do que a nitroglicerina, que tem que ser transportada delicadamente, sem agitações ou mudanças bruscas de temperatura.

Uma tarefa para pessoas desesperadas, não apenas pelo dinheiro, mas pela oportunidade de sair daquele lugar e recuperar um pouco do que sobrou da vida. E assim, o quarteto embarca nesta jornada onde o resultado não é entregar o explosivo para salvar vidas, mas sobreviver a jornada para permanecer vivo. E com isso, o filme vai revelando aos poucos, as culpas e as fragilidades de cada um dos personagens. É uma terrível jornada de descoberta, onde por mais compaixão que se tenha pelos personagens, suas falhas morais acabam se sobressaindo e revelando como o ser humano é um elemento complicado em qualquer drama.

“O Salário do Medo” tem o título que parece remeter à jornada desses homens frente a uma missão quase impossível. Na realidade, é o pagamento por entenderem como eles mesmos são como seres humanos, falhos mesmo quando fraquejam pelo bem comum. Clousot constrói uma história que não dá margem para a emoção primal, onde a dor é sentida dentro da própria alma. Eles pecaram e terão que passar por um purgatório real para chegar a redenção.

E que purgatório…

 

O Comboio do Medo (1977). Direção de William Friedkin. Com Roy Scheider, Bruno Dremer, Francisco Rabal e Amidou. (Disponível na Darkflix+)

Apesar de não ter feito uma boa bilheteria, Friedkin declarou que esse foi o melhor filme que ele dirigiu. Ele mesmo foi conversar com Henri Clousot para conseguir sua aprovação para a versão que ele iria filmar, no interior do México. “O Comboio do Medo” teve apenas um problema em seu lançamento: uma outra produção chamada “Guerra nas Estrelas”.

Independente de todos os altos e baixos nos bastidores, as mudanças de humor de Roy Scheider, os acidentes com os dublês, a dificuldade de fazer a sequência da ponte, é um filme sobre relações humanas dentro de uma caldeira que vai explodir. Toda a história é igual em relação ao trabalho de levar o explosivo para salvar todos numa região próxima ao campo de petróleo.

Friedkin, ao contrário de Clouzot, colocou a força do filme na origem de cada um dos personagens. Ele detalha o que aconteceu com cada um deles para chegar ao fundo do poço, literalmente, onde eles irão tentar resgatar suas próprias vidas. Não são dramas existenciais, como sugere a primeira versão. São histórias de pessoas comuns que resolveram romper com a sociedade, praticando crimes, de menor ou maior gravidade.

Isso é bem notado como eles acabam se relacionando quando, independente de suas índoles, são obrigados a se unir para sobreviver. A melhor sequência que resume esse clima de tensão entre machos alfa é quando eles não conseguem seguir viagem por causa de uma arvore tombada no meio da estrada. São brigas, discussões, acusações, típicas de uma situação que parece não ter saída, até que alguém toma a iniciativa de dar o primeiro passo para resolver.

Essas mudanças fazem parte da história que Friedkin quer contar. Ele não está interessado em heroísmo ou criar uma nova jornada do herói. O cineasta mostra que toda ação tem reação, mesmo que ela demore a acontecer. Nesse sentido, é um filme tenso e sombrio, onde por mais que você fique aliviado com o que parece ser o final do filme, o diretor lhe dá mais alguns segundos para descobrir que o pesadelo está apenas começando.

 

O Salário do Medo (2024).  Direção de Julien Leckerck. Com Franck Gastambide, Alban Lenoir, Sofiane Zermani, Bakary Diobera, e Sofiane Zermani. (Disponível na Netflix)

Aqui tempos uma adaptação para os tempos modernos, com uma história que se passa no Oriente Médio, região do mundo que começou a ficar mais intensa no final dos anos 60, quando a OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo começou a mexer no tabuleiro dos interesses de seus produtores e os interesses dos compradores internacionais. Sim, os lendários e contínuos aumentos do preço do barril de petróleo.

É nesse cenário que vamos assistir um grande filme de ação e aventura. Não estou exagerando. O drama pessoal de cada um dos personagens, algo básico das duas primeiras versões do livro de Georges Arnaud, é deixada de lado para a construção de um filme de muita adrenalina. Não apenas sobre o transporte da nitroglicerina para apagar o incêndio que pode devastar uma comunidade inteira, mas os obstáculos que são colocados no comboio para chegar até o lugar da entrega do explosivo.

Tem o deserto, o terreno acidental, um vazamento de óleo numa das travessias, além do encontro com facções terroristas, dispostas a tudo contra os infiéis. É uma gama de problemas onde a solução está na agilidade de sair da enrascada antes que o comboio seja comprometido. É uma aventura intensa, e que passa sim, um pouco de como os personagens principais chegaram até aquele momento.

Sem contar que, pela primeira vez, a grande corporação é exposta de uma forma bem inteligente na história. Com pouco menos de 2 horas de produção, essa versão é a mais diferente do primeiro “O Salário do Medo”. O jovem diretor Julien Leckerck, não se preocupou em fazer homenagens aos filmes anteriores, como geralmente acontece. Ele quis mostrar que mesmo uma história conhecida e contada várias vezes, pode render algo diferente e emocionante.

Essa versão não é anabolizada, com exageros propostos para intensificar as emoções. Assim como as outras, ela tem uma moral própria que coaduna com o destino de cada um dos personagens. Aqui, contudo, é até possível usar o clichê do final mais positivo, honrando a família e a relação de amizade. Algo que cada vez mais, tem sido difícil de encontrar no cinema e na televisão.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes. O filme “O Comboio de Medo” está disponível na Darkflix+.

 

 

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