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Cinema em Perspectiva: As Noivas de Frankenstein

Publicado em 10 de Março de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Texto de Paulo Gustavo Pereira – Jornalista e apresentador.

O mito criado por Mary Shelley em seu romance Frankenstein, publicado em 1818, continua sendo uma das fontes mais ricas de inspiração para o cinema fantástico. Desde o início do século XX, diferentes cineastas voltaram à obra para reinterpretar o drama da criação artificial e suas consequências morais. Não por acaso, a mais recente versão desse lendário é assinada por um fã de terror, Guilhermo Del Toro, deste, concorre a nove categorias do Oscar esse ano, incluindo os de Melhor Filme e Direção. Aliás, Del Toro ganhou o Oscar de Direção pela versão disfarçada de O Monstro da Lagoa Negra (1954), pelo filme A Forma da Água, em 2018.

Entre as diversas adaptações e derivações da história, três filmes se destacam por explorar a figura da criatura feminina ligada ao universo de Frankenstein:  A Noiva de Frankenstein (1935), A Prometida (1985) e a nova releitura contemporânea A Noiva (2026). Cada um deles dialoga com o legado literário de Shelley ao apresentar uma visão própria da criatura feminina, do impacto emocional e filosófico da criação da vida, sem forçar a barra para uma discussão mais politizada do papel da mulher. Shelley já faz isso explicitamente, quando decidiu escrever essa épica obra.

O primeiro grande marco dessa tradição no cinema surgiu em 1935, quando o diretor James Whale dirigiu A Noiva de Frankenstein. Produzido pela Universal Pictures, o filme expandiu o universo estabelecido em Frankenstein (1931) e consolidou o período clássico dos chamados Monstros da Universal, criando uma tríade formada por Boris Karloff, como o Monstro de Frankenstein, Bela Lugosi, no papel do Conde Drácula, e Lon Chaney Junior, como o Lobisomem.

Interpretada por Elsa Lanchester, a Noiva aparece apenas nos minutos finais do filme, mas sua aparência — cabelo eletrizado com mechas brancas, maquiagem dramática e movimentos quase mecânicos — tornou-se uma referência visual permanente da cultura pop. Curiosamente, Lanchester também interpreta Mary Shelley no prólogo do filme, em uma sequência que imagina a autora discutindo a continuação de sua história com Percy Bysshe Shelley e Lord Byron. Esse recurso narrativo cria uma ligação direta entre a literatura original e o universo cinematográfico.

Uma das razões pelas quais A Noiva de Frankenstein permanece tão relevante é o estilo singular de James Whale. O diretor combina terror gótico com toques de ironia e humor negro, algo incomum para o gênero na época. O resultado é um filme que oscila entre o macabro e o quase satírico, sem perder a carga dramática.

Décadas após seu lançamento, A Noiva de Frankenstein continua sendo considerado uma das melhores sequências já produzidas e um marco do cinema fantástico. Sua estética expressionista, personagens memoráveis e mistura única de horror e emoção ajudaram a definir o imaginário dos monstros da Universal. Mais do que um simples filme de terror, a obra de James Whale se transformou em um clássico atemporal, cuja influência pode ser vista em inúmeras produções posteriores — de releituras modernas de Frankenstein até homenagens em séries, filmes e na própria cultura pop.

 

A Prometida de Jennifer Beals

Cinco décadas depois, o cinema revisitaria essa ideia de forma mais intimista e psicológica com A Prometida (1985), dirigido por Franc Roddam. O filme desloca o foco da narrativa para a própria criatura feminina, chamada Eva, interpretada por Jennifer Beals. Diferentemente da figura quase simbólica apresentada no clássico de 1935, Eva ocupa o centro dramático da história. Assim como aconteceu na minissérie A Verdadeira História de Frankenstein, de 19973, com Jane Seymour ocupando a telinha com sua interpretação da futura noiva do monstro.

A prometida criada pelo Barão Frankenstein, vivido pelo músico e ator Sting, passa por um processo gradual de descoberta do mundo e de si mesma. A atuação de Beals enfatiza essa evolução emocional, revelando uma personagem que aprende a falar, a compreender sentimentos e a desenvolver consciência própria. Essa abordagem aproxima o filme das reflexões filosóficas presentes no romance de Shelley, especialmente a ideia de que a verdadeira tragédia da criação artificial está na incapacidade do criador de compreender as necessidades de sua própria criatura.

Jennifer Beals entrega uma performance marcada por sutileza física e emocional. Sua Eva evolui de uma figura quase etérea e artificial para uma mulher que descobre o mundo — e a si mesma — com crescente intensidade. Já Sting interpreta Frankenstein com um ar aristocrático e distante, representando a obsessão científica e o desejo de controlar a vida que sempre acompanharam o personagem desde a obra original.

A direção de Franc Roddam aposta em uma atmosfera gótica elegante, com cenários que evocam tanto a tradição do terror clássico quanto o romantismo sombrio do século XIX. O resultado é uma produção que mistura fantasia, drama e romance, afastando-se do horror tradicional e criando um tom próprio dentro do vasto universo das adaptações de Frankenstein. Embora não tenha sido um grande sucesso comercial na época de seu lançamento, A Prometida acabou conquistando status de cult entre fãs de cinema fantástico. Sua proposta de explorar a criação feminina de Frankenstein — raramente desenvolvida com tanta profundidade — faz do filme uma curiosidade interessante dentro da longa história de adaptações da obra de Mary Shelley.

No fim das contas, A Prometida funciona como uma espécie de fábula romântica sobre criação e liberdade, mostrando que até mesmo uma criatura concebida em laboratório pode buscar algo essencialmente humano: o direito de escolher o próprio destino.

 

A Noiva de Maggie Gyllenhaal

Décadas mais tarde, o mito voltou a ganhar uma nova leitura cinematográfica com A Noiva (2026), dirigido por Maggie Gyllenhaal e que está chegando aos cinemas brasileiros. Ambientada em uma versão estilizada da década de 1930, a produção apresenta uma abordagem contemporânea do universo de Frankenstein, combinando elementos de horror, romance e comentário social. A criatura feminina é interpretada por Jessie Buckley, que enfatiza uma atuação mais emocionalmente da personagem, que navega entre vulnerabilidade e força, refletindo a tensão entre sua origem artificial e o desejo de autonomia.

Essa nova versão reforça a dimensão simbólica da “noiva” como representação das consequências éticas da criação científica — um tema central desde a obra de Mary Shelley — ao mesmo tempo em que dialoga com preocupações contemporâneas sobre identidade e liberdade individual.

Algo também visto em Pobres Criaturas (2023), que deu o Oscar de Atriz para Emma Stone, numa versão ousada da criatura, que usa o sexo como arma para conseguir realizar seus mais estranhos desejos, dentro e fora da cama. Diferentemente das versões anteriores, a criatura chamada Bella, não é definida por sua relação com um “monstro” masculino. Sua trajetória é completamente centrada em autodescoberta e liberdade. Em muitos aspectos, Bella pode ser vista como a versão mais emancipada da “noiva de Frankenstein” já apresentada no cinema.

Observando essas produções, percebe-se como o cinema reinterpretou ao longo das décadas um dos elementos mais fascinantes do universo de Frankenstein: a criação de uma companheira para a criatura. Cada filme mantém uma ligação direta com as ideias fundamentais de Mary Shelley — a responsabilidade do criador, o isolamento da criatura e o desejo humano por companhia — ao mesmo tempo em que adapta esses temas às sensibilidades de seu tempo. As interpretações de Elsa Lanchester, Jennifer Beals e Jessie Buckley demonstram como a figura da Noiva evoluiu de um símbolo trágico do horror clássico para uma personagem com crescente profundidade psicológica e autonomia narrativa, reafirmando a vitalidade e a relevância do mito de Frankenstein no imaginário cultural moderno.

Se você quiser conhecer melhor A Noiva de Frankenstein e A Prometida, essas duas obras estão disponíveis na Darkflix+.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

  

  

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