Texto de Carlos Castelo
Jornalista, poeta e publicitário.
Há filmes que se assistem com os olhos. Apocalypto, por outro lado, é um daqueles que se assiste com a pele. Ele não passa apenas diante da retina; ele grita através da folhagem, pinga do suor de cada fuga, retumba com os pés descalços na terra molhada. Mel Gibson, com sua conhecida propensão ao épico, não nos convida à história maia. Ele nos lança dentro dela, como quem empurra gentilmente um amigo em um rio profundo: “Vai, sente o tempo escorrendo.”
O enredo, por mais simples que possa parecer (um homem tentando retornar à sua família) se desdobra com a nobreza das epopeias antigas. Garra de Jaguar, nosso herói sem armadura e sem espada, é a encarnação do instinto primitivo, mas também da ternura ancestral. Ele não corre apenas pela própria vida, mas pela memória do seu povo, pela promessa feita ao ventre de sua esposa, pela continuidade de uma existência tecida entre árvores e astros.
Mel Gibson faz algo raro aqui: evita o conforto das palavras fáceis. O filme inteiro se desenrola em yucateco maia, o que nos obriga a abandonar o ouvido e confiar nos olhos, no gesto, no olhar, no silêncio entre duas respirações. É cinema em estado bruto, onde o som de uma lança sendo arremessada pode dizer mais que três páginas de roteiro.

Visualmente, Apocalypto é impecável. A floresta não é pano de fundo, é personagem. Respira, murmura, se irrita. A natureza aqui tem humor, tem perigo, tem beleza. E quando o sol se esconde atrás das copas e a perseguição começa, não é só Garra de Jaguar que corre: o espectador corre junto, como se cada gota de chuva na tela caísse também sobre o próprio rosto.
Não se trata, claro, de um documentário histórico. É um mergulho estilizado num tempo à beira do fim, onde a civilização maia vive seus últimos esplendores e assombrações. Mas o que fica, e permanece, como os rastros de um felino sobre a lama, é a ideia de que antes da história escrita, havia histórias vividas. E Apocalypto nos permite tocar uma delas, ainda quente, ainda pulsante.
No final, não há alarde. Apenas o silêncio de uma nova era se aproximando. E talvez a maior elegância do filme esteja aí: mesmo diante do colapso, Mel Gibson prefere nos mostrar o que permanece de pé: o amor, a coragem, a promessa de retorno.
E assim, saímos de frente da tela não apenas com o coração acelerado, mas com a sensação de termos sido, por algumas horas, parte de um mundo que já não existe. Mas que, com o diretor certo, nunca deixou de viver.
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- Título original: Apocalypto
- Ano de produção: 2006
- Direção: Mel Gibson
- Roteiro: Mel Gibson, Farhad Safinia
- Gênero: Épico, Ação, Drama
- Duração: 139 minutos
- Idioma original: Dialeto maia (yucateco)
- Estreia no Brasil: 26 de janeiro de 2007
Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária.
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