Sou um cinéfilo. Gosto de filmes e, quando um deles chama minha atenção, volto ao cinema para vê-lo novamente ou assisto à sua versão doméstica, do VHS ao streaming. Para essa regra que criei ao longo dos anos, existem raras exceções. São aqueles filmes cujas histórias são tão elaboradas e possuem finais tão surpreendentes que prefiro não assistir novamente.
É claro que até mesmo essas exceções têm outra regra simples: o filme é muito ruim e não vale a pena perder tempo com ele. Não é o caso de “Salò” (1975), que comentei aqui neste espaço. O último filme do grande cineasta italiano Pier Paolo Pasolini é desagradável como filme, como mensagem e até mesmo dentro do contexto de seu lançamento. “Salò”, para mim, é um daqueles filmes que gostaria de não ter visto.
Por isso, quando entrei no antigo Cine Gazetinha, hoje Reserva Cultural, para ver o mais recente filme de Alan Parker, “Coração Satânico”, saí da sessão surpreso por ter visto uma pequena obra-prima do suspense noir. Foi uma dupla surpresa, especialmente porque, até aquele momento, Alan Parker já havia realizado algumas preciosidades como “Bugsy Malone – Quando as Metralhadoras Cospem” (1976), “O Expresso da Meia-Noite” (1978), “Fama” (1980), a versão cinematográfica do álbum do Pink Floyd, “The Wall” (1982), e “Asas da Liberdade” (1984).
Três anos após lançar o sensível “Asas da Liberdade”, Alan Parker, com a ajuda do escritor William Hjortsberg, levou para o cinema o romance “Falling Angel”, publicado por Hjortsberg em 1978. E foi assim que surgiu “Coração Satânico”.
Do papel para o celuloide
Lançado em 1987, “Coração Satânico” (Angel Heart) mistura investigação policial, cinema noir e horror sobrenatural. Mickey Rourke interpreta Harry Angel, um detetive particular contratado pelo misterioso Louis Cyphre, vivido por Robert De Niro, para localizar um antigo cantor desaparecido. A investigação leva Angel a uma sucessão de mortes e acontecimentos cada vez mais perturbadores, enquanto a fronteira entre realidade, memória e pesadelo começa a desaparecer.
A conversa entre essas duas forças antagônicas da história é um dos primeiros grandes momentos do filme. Harry está visivelmente incomodado diante de um cliente completamente fora dos padrões aos quais estava acostumado. Do outro lado, o senhor Cyphre conduz a conversa lentamente enquanto quebra um ovo cozido de uma maneira que nenhuma pessoa normal faria. Que cena!
O filme foi produzido com orçamento de cerca de US$ 18 milhões e rodado entre Nova York e Nova Orleans. Parker explorou especialmente a atmosfera das duas cidades, utilizando ruas, bares, igrejas e ambientes decadentes para criar um universo visual em que o noir dos anos 1940 se mistura ao ocultismo.
Um dos episódios mais curiosos envolvendo a produção aconteceu antes mesmo da estreia. A Motion Picture Association of America classificou a primeira versão do filme como X, principalmente por causa de alguns segundos da cena de sexo entre Mickey Rourke e Lisa Bonet. Era uma sequência visualmente ousada para os padrões da época. Parker enfrentou o conselho de classificação em sucessivos recursos e acabou cortando cerca de dez segundos da cena para conseguir a classificação R, permitindo o lançamento comercial do filme nos Estados Unidos.
A polêmica ganhou ainda mais repercussão porque Lisa Bonet, então com 19 anos, era conhecida mundialmente como Denise Huxtable em “The Cosby Show”. A imprensa acabou dando grande destaque à participação da jovem atriz em uma produção tão distante da imagem familiar que ela havia construído na televisão.
E aqui cabe um comentário sobre jovens atrizes em Hollywood. Não posso afirmar que a decisão de Lisa Bonet de mudar sua imagem de “boa moça” para uma mulher mais ousada em “Coração Satânico” tenha se tornado um padrão para outras atrizes. O fato é que Selena Gomez e Zendaya, para citar exemplos mais recentes, também ficaram conhecidas inicialmente por trabalhos voltados ao público jovem e depois assumiram personagens adultos em produções como “Only Murders in the Building” (2021) e “Euphoria” (2019).
Voltando a “Coração Satânico”. Curiosamente, o filme não foi um grande sucesso de bilheteria. Arrecadou cerca de US$ 17,2 milhões nos Estados Unidos, pouco abaixo de seu orçamento. Com o passar dos anos, porém, ganhou uma segunda vida, sendo redescoberto como um dos trabalhos mais interessantes e sombrios de Alan Parker. A fotografia, a direção de arte, a trilha sonora e, principalmente, a combinação entre investigação policial e terror ajudaram a transformar o filme em uma obra cult.
Para mim, toda a revelação conduzida pela história é brilhante. O filme não depende apenas de revelar seu mistério. Ele constrói uma atmosfera que continua perturbadora mesmo depois que o espectador já conhece o segredo.
Esse é justamente o motivo de eu não querer revê-lo, mesmo estando disponível na Darkflix+. Ao longo dos anos, acumulei alguns filmes que estão nessa categoria: obras que assisti apenas uma vez.
Não revê-los é, de certa maneira, preservar aquelas memórias que fizeram daqueles momentos dentro da sala de projeção algo mágico. É guardar a sensação de quando o mistério finalmente é revelado e a história chega ao fim de uma jornada sobrenatural, na qual personagens caminham inexoravelmente para um destino insólito. Isso é cinema.
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
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