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Cinema em Perspectiva: O Pacto Sinistro de Coração Satânico

Publicado em 14 de Outubro de 2026 por Paulo Gustavo Pereira

Sou um cinéfilo. Gosto de filmes e, quando um deles chama minha atenção, volto ao cinema para vê-lo novamente ou assisto à sua versão doméstica, do VHS ao streaming. Para essa regra que criei ao longo dos anos, existem raras exceções. São aqueles filmes cujas histórias são tão elaboradas e possuem finais tão surpreendentes que prefiro não assistir novamente.

É claro que até mesmo essas exceções têm outra regra simples: o filme é muito ruim e não vale a pena perder tempo com ele. Não é o caso de “Salò” (1975), que comentei aqui neste espaço. O último filme do grande cineasta italiano Pier Paolo Pasolini é desagradável como filme, como mensagem e até mesmo dentro do contexto de seu lançamento. “Salò”, para mim, é um daqueles filmes que gostaria de não ter visto.

Por isso, quando entrei no antigo Cine Gazetinha, hoje Reserva Cultural, para ver o mais recente filme de Alan Parker, “Coração Satânico”, saí da sessão surpreso por ter visto uma pequena obra-prima do suspense noir. Foi uma dupla surpresa, especialmente porque, até aquele momento, Alan Parker já havia realizado algumas preciosidades como “Bugsy Malone – Quando as Metralhadoras Cospem” (1976), “O Expresso da Meia-Noite” (1978), “Fama” (1980), a versão cinematográfica do álbum do Pink Floyd, “The Wall” (1982), e “Asas da Liberdade” (1984).

Três anos após lançar o sensível “Asas da Liberdade”, Alan Parker, com a ajuda do escritor William Hjortsberg, levou para o cinema o romance “Falling Angel”, publicado por Hjortsberg em 1978. E foi assim que surgiu “Coração Satânico”.

 

Do papel para o celuloide

Lançado em 1987, “Coração Satânico” (Angel Heart) mistura investigação policial, cinema noir e horror sobrenatural. Mickey Rourke interpreta Harry Angel, um detetive particular contratado pelo misterioso Louis Cyphre, vivido por Robert De Niro, para localizar um antigo cantor desaparecido. A investigação leva Angel a uma sucessão de mortes e acontecimentos cada vez mais perturbadores, enquanto a fronteira entre realidade, memória e pesadelo começa a desaparecer.

A conversa entre essas duas forças antagônicas da história é um dos primeiros grandes momentos do filme. Harry está visivelmente incomodado diante de um cliente completamente fora dos padrões aos quais estava acostumado. Do outro lado, o senhor Cyphre conduz a conversa lentamente enquanto quebra um ovo cozido de uma maneira que nenhuma pessoa normal faria. Que cena!

O filme foi produzido com orçamento de cerca de US$ 18 milhões e rodado entre Nova York e Nova Orleans. Parker explorou especialmente a atmosfera das duas cidades, utilizando ruas, bares, igrejas e ambientes decadentes para criar um universo visual em que o noir dos anos 1940 se mistura ao ocultismo.

Um dos episódios mais curiosos envolvendo a produção aconteceu antes mesmo da estreia. A Motion Picture Association of America classificou a primeira versão do filme como X, principalmente por causa de alguns segundos da cena de sexo entre Mickey Rourke e Lisa Bonet. Era uma sequência visualmente ousada para os padrões da época. Parker enfrentou o conselho de classificação em sucessivos recursos e acabou cortando cerca de dez segundos da cena para conseguir a classificação R, permitindo o lançamento comercial do filme nos Estados Unidos.

A polêmica ganhou ainda mais repercussão porque Lisa Bonet, então com 19 anos, era conhecida mundialmente como Denise Huxtable em “The Cosby Show”. A imprensa acabou dando grande destaque à participação da jovem atriz em uma produção tão distante da imagem familiar que ela havia construído na televisão.

E aqui cabe um comentário sobre jovens atrizes em Hollywood. Não posso afirmar que a decisão de Lisa Bonet de mudar sua imagem de “boa moça” para uma mulher mais ousada em “Coração Satânico” tenha se tornado um padrão para outras atrizes. O fato é que Selena Gomez e Zendaya, para citar exemplos mais recentes, também ficaram conhecidas inicialmente por trabalhos voltados ao público jovem e depois assumiram personagens adultos em produções como “Only Murders in the Building” (2021) e “Euphoria” (2019).

Voltando a “Coração Satânico”. Curiosamente, o filme não foi um grande sucesso de bilheteria. Arrecadou cerca de US$ 17,2 milhões nos Estados Unidos, pouco abaixo de seu orçamento. Com o passar dos anos, porém, ganhou uma segunda vida, sendo redescoberto como um dos trabalhos mais interessantes e sombrios de Alan Parker. A fotografia, a direção de arte, a trilha sonora e, principalmente, a combinação entre investigação policial e terror ajudaram a transformar o filme em uma obra cult.

Para mim, toda a revelação conduzida pela história é brilhante. O filme não depende apenas de revelar seu mistério. Ele constrói uma atmosfera que continua perturbadora mesmo depois que o espectador já conhece o segredo.

Esse é justamente o motivo de eu não querer revê-lo, mesmo estando disponível na Darkflix+. Ao longo dos anos, acumulei alguns filmes que estão nessa categoria: obras que assisti apenas uma vez.

Não revê-los é, de certa maneira, preservar aquelas memórias que fizeram daqueles momentos dentro da sala de projeção algo mágico. É guardar a sensação de quando o mistério finalmente é revelado e a história chega ao fim de uma jornada sobrenatural, na qual personagens caminham inexoravelmente para um destino insólito. Isso é cinema.

 

Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.

 

 

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