“Metrópolis” foi um dos poucos filmes mudos que assisti no cinema. A sessão aconteceu no antigo cinema da Praça Roosevelt, o Bijou, em São Paulo, numa época em que assistir a uma obra do período silencioso em uma sala de cinema ainda era uma experiência bastante incomum. Queria assistir a esse filme de ficção-científica, um gênero que já havia me cativado, após ver um programa sobre cinema na TV Cultura, onde algumas cenas de Metrópolis foram usadas para falar sobre o futuro.
Curiosamente, o futuro de Metrópolis se passa em 2026…
Naquele momento, eu evidentemente não poderia imaginar que a história de “Metrópolis” continuaria sendo escrita décadas depois de sua estreia. E muito menos que o filme que eu estava vendo fazia parte de uma longa história de versões incompletas, cortes e reconstruções.
Foi somente muitos anos depois que descobri a dimensão dessa história. Durante décadas, “Metrópolis”, dirigido por Fritz Lang em 1927, sobreviveu em versões diferentes, muitas delas mutiladas pelos cortes realizados desde sua distribuição original. Partes consideradas perdidas pareciam ter desaparecido definitivamente. Até que uma cópia praticamente esquecida apareceu na Argentina…
A outra história de “Metrópolis”
Não conhecia a história da restauração de “Metrópolis”. Em 2004, era um frequentador da Laserland, uma loja especializada em São Paulo, de DVD, CD e Laserdisc. Foi lá que vi o DVD “Fritz Lang’Metropolis – Restored Authorized Edition”, lançado pelo selo americano Kino Video em 2003. Só tinha visto o filme na sessão do Bijou e depois numa cópia colorizada em VHS, acompanhada pela trilha que Giorgio Moroder criou para sua versão de 1984. Aff…
Assisti essa versão restaurada e os anos se passaram. Zapeando a TV em 2010, vejo o começo do documentário “Metropolis Refundada”, exibida por um dos canais Globosat. Com 47 minutos de duração, o filme produzido e dirigido por Evangelina Loguercio, Diego Panich, Laura Tusi e Sebastián Yablón, mostra como eles conseguiram identificar uma cópia do filme em 16 mm, encontrada no Museo del Cine de Buenos Aires em 2008, que continha cerca de 25 minutos de cenas consideradas perdidas. A descoberta mudou a história do filme.
O documentário relata os passos que o grupo teve que dar para provar a autenticidade da cópia para o Instituto Goethe, em Munique. O material encontrado permitiu recuperar trechos que durante décadas eram conhecidos apenas por fotografias, documentos e descrições. Com ele, tornou-se possível reconstruir uma versão muito mais próxima daquela concebida originalmente por Fritz Lang.
Só para se ter uma ideia desse trabalho de recuperação, a versão colorizada lançada nos anos 80, tinha menos de 90 minutos de duração. A restauração realizada em 2001, que chegou aos Estados Unidos pela Kino Video, tinha cerca de 124 minutos. Na época, era considerada a reconstrução mais completa que poderia ser obtida com o material disponível. Com o material encontrado na Argentina, a restauração de 2010 chegou a aproximadamente 150 minutos, muito próxima da duração da versão exibida na estreia de 1927, estimada em 153 minutos. A versão final chegou a 2 horas e 30 minutos, registrada no IMDB – Internet Movie DataBase.
Felizmente, para nós, a Darkflix+ exibe em seu acervo, essa segunda restauração. É uma oportunidade que não existia quando assisti ao filme pela primeira vez no Bijou.
Essa é uma daquelas histórias extraordinárias em que a própria preservação cinematográfica se transforma numa aventura digna de um filme. Um rolo de película que permaneceu décadas praticamente esquecido acabou atravessando o tempo para devolver ao cinema imagens que pareciam definitivamente perdidas.
E talvez seja justamente por isso que “Metrópolis” continue sendo tão fascinante. Não estamos diante apenas de um clássico da ficção científica. Estamos diante de uma obra que precisou ser resgatada para que pudéssemos compreender melhor a sua própria história.
Em minhas lembranças da sessão do Cine Bijou, está claro que a versão que vi era similar ao filme colorizado em VHS. Só revi o filme, após minha produtiva visita à Laserland. E claro, decidi escrever sobre esse momento da história do cinema, porque consegui ver a versão completa de Fritz Lang, na Darkflix+. Fico imaginando o que seria da história do cinema se não houvessem divertidas descobertas sobre a própria história dele…
Paulo Gustavo Pereira é jornalista formado, com uma carreira consolidada na televisão, no impresso e no jornalismo cultural. Atuou em grandes emissoras como Tupi, Globo, Bandeirantes, Record, Manchete, Cultura e SBT, além de dirigir transmissões do Oscar no Brasil e nos Estados Unidos. Foi colaborador de importantes jornais, dirigiu revistas especializadas e é autor de livros de referência sobre séries e animação. Atualmente, é editor do site BesTV, apresenta o programa homónimo ao vivo e atua como especialista em séries e filmes.
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