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Crônica: O Estigma de Satanás

Publicado em 2 de Junho de 2026 por Carlos Castelo

Houve uma época em que o horror ainda tinha lama nas botas. Antes de adolescentes correrem de assassinos mascarados em subúrbios americanos impecavelmente iluminados, existia o interior inglês de “O Estigma de Satanás”, onde o mal surgia da terra que nem uma praga agrícola. Não havia sustos fáceis. Havia neblina e gente desconfiada olhando para o horizonte como se Deus estivesse atrasado para uma reunião importante.

“O Estigma de Satanás” é um daqueles filmes que parecem ter sido encontrados dentro de um celeiro úmido, enrolados num saco de estopa ao lado de ferramentas enferrujadas e ossos de animais. Você não assiste ao filme. Você o desenterra.

A Inglaterra do século XVII retratada ali não tem nada da elegância turística dos cartões-postais. É um lugar com gente de dentes ruins, barro e superstição em estado bruto. Os camponeses são pessoas que jamais ouviram uma piada na vida. E talvez não tenham mesmo. Qualquer indivíduo que passe seis meses olhando batatas crescerem inevitavelmente começa a acreditar em demônios.

O mais perturbador no filme não é Satanás. Satanás, no fundo, é quase um funcionário administrativo da desgraça. O inquietante é a juventude rural inglesa. Aqueles adolescentes possuem a energia social de um grupo de teatro experimental financiado pelo inferno. Formam um culto satânico com a naturalidade de quem organiza uma quadrilha junina. A líder, Angel Blake, interpretada por Linda Hayden, tem o olhar de alguém que já nasceu sabendo que um dia traumatizaria os cinéfilos.

O diretor Piers Haggard compreendeu algo fundamental: o horror verdadeiro não precisa correr. Ele pode caminhar devagar por uma plantação, acompanhado apenas pelo vento. O filme inteiro parece contaminado por uma febre medieval. A fotografia tem a textura de um pesadelo.

Há também outra coisa de muito britânico em toda a tragédia. Enquanto jovens cultuam o diabo e enlouquecem coletivamente, surge um magistrado tentando resolver tudo com a postura burocrática de quem foi chamado para discutir infiltração no telhado da paróquia. O personagem de Patrick Wymark enfrenta o satanismo como um síndico enfrentaria reclamações sobre barulho após as dez.

Talvez seja por isso que o filme permaneça vivo. Porque ele sugere uma ideia terrível: a civilização é apenas uma fina camada de verniz protestante cobrindo um pântano pagão cheio de adolescentes entediados.

E basta alguém cavar o lugar errado para tudo voltar.

 

Título original:
The Blood on Satan’s Claw

Lançamento:
1971.

País de origem:
Reino Unido.

Direção:
Piers Haggard.

Duração:
93 minutos.

Roteiro: Robert Wynne‑Simmons e Piers Haggard.

Trilha sonora: Marc Wilkinson.

 

Carlos Castelo é jornalista, poeta e publicitário com carreira marcada por premiações como os Leões de Cannes. Como cronista, colabora com veículos como O Estado de S. Paulo, O Dia e Rascunho. Co-fundador do grupo de humor Língua de Trapo, ele une em sua escrita o olhar crítico e a veia literária. “O Estigma de Satanás” está disponível na Darkflix+.

 

 

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